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Das estratégias ao otimismo
Representantes da indústria e do agro de Piracicaba falam dos desafios que os aguardam em 2022

Por José Ricardo Ferreira

 A participação da indústria na economia tem sido fundamental para enfrentar as crises

Crédito: José Paulo Lacerda/CNI

A participação da indústria na economia tem sido fundamental para enfrentar as crises

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta crescimento de 1,2% para a economia brasileira em 2022, a partir da “superação parcial de problemas conjunturais, como inflação, emprego e normalização das cadeias globais de valor a partir do segundo semestre do ano”. A previsão está no documento Economia Brasileira: 2021-2022, divulgado no último mês de 2021, em Brasília.

Por outro lado, também em dezembro, o índice que mede a confiança da indústria no Brasil teve sua quinta queda consecutiva, fechando 2021 no nível mais fraco em mais de um ano, com uma avaliação menos favorável sobre o momento atual e expectativas mais cautelosas para 2022. O Índice de Confiança da Indústria (ICI) recuou 2,0 pontos em dezembro, a 100,1 pontos, seu menor nível desde agosto de 2020 (98,7), segundo informativo da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Inflação, falta de insumos, pressão nos custos de produção e incertezas ajudaram a indústria a diminuir o seu otimismo.

Em Piracicaba, a Gazeta ouviu Euclides Baraldi Libardi e Homero Scarso. O primeiro é o presidente do Simespi (Sindicato das Indústrias Metalúrgicas), enquanto Scarso é o gerente regional do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo). E também Arnaldo Bortoletto, presidente da Coplacana (Cooperativa dos Plantadores de Cana) .

Aos 76 anos, Libardi diz que já viu passar muitos governos e que muitas coisas importantes foram feitas. Mas também muitos projetos valorosos foram abandonados.

A indústria brasileira com seus dirigentes e trabalhadores são resilientes, apontam Libardi. O ano de 2021 poderia ter sido pior, mas o empresariado conseguiu dar uma resposta positiva. “2021 estava estragado e conseguimos melhorá-lo. Diminuímos um pouco o desemprego e produzimos mesmo com a falta de matéria-prima”, apontou ele.

Libardi não se ilude facilmente com as conquistas. As experiências o deixam em alerta. Ele explica que 2022 proporcionará desafios que exigirão muitas estratégias, principalmente para os pequenos e médios empresários. Isso porque será um ano eleitoral com intensa divisão política e que mostra, desde já, políticos se “ajeitando” em partidos em vez de se preocuparem com o Brasil.

Outro problema é a famigerada “insegurança jurídica que intimida os investimentos. “O Brasil é o país dos ‘pés nas costas’ porque você pensa que está fazendo certo, mas está fazendo errado”, disse ele.

Libardi diz que o empreendedor nacional e o investidor estrangeiro não se sentem seguros em apostar todas as fichas no Brasil devido à insegurança jurídica. O mundo, aponta ele, está com liquidez, isto é, há dinheiro para investimentos. Porém, mesmo sendo o Brasil o país das oportunidades, ninguém vai correr grandes riscos.

Ele também citou outros problemas como a crise hídrica, a inflação e o desemprego. O Banco Central e o governo federal, diz Libardi, precisam agir contra a inflação.

A inflação oficial, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), alcançou a marca de 10,74% no acumulado de 12 meses até novembro, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O desemprego no Brasil atingiu 12,1% no trimestre móvel de agosto a outubro de 2021, o que representou queda de 1,6 ponto percentual (p.p.) na comparação com o trimestre de maio a julho de 2021, quando ficou em 13,7%. Em relação ao mesmo trimestre móvel de 2020 (14,6%), o recuo é de 2,5 pontos percentuais. A população desocupada chegou a 12,9 milhões de pessoas, uma redução de 10,4% ou menos 1,5 milhão, se comparado ao trimestre encerrado em julho, quando eram 14,4 milhões de pessoas.

Libardi lembra que a preocupação não é somente com o desemprego, mas com a falta de mão de obra qualificada para ocupar os cargos nas empresas. Há investimento na produção, mas falta pessoal para lidar com a tecnologia.

O lado positivo para 2022 é que os insumos estão voltando ao normal, o que facilitará a produção e ajudará a recuar os preços, segundo o dirigente empresarial.

Em relação à queda da confiança da indústria, Libardi entende que não é bem isso o que ocorre. O que existe é um “recuo”, isto é, o empresário tende a esperar o melhor momento para investir.

Outra situação que o preocupa é a ausência de uma pauta de reformas estruturais e fiscais. Com reformas, diz, o investimento se torna seguro.

Libardi tem a expectativa que até março as pesquisas eleitorais já indiquem uma larga vantagem de algum candidato à presidência. Desta forma o setor produtivo já saberá com quem vai lidar e poderá realmente iniciar uma estratégia de investimentos. Mas ele alerta: no Brasil, não são os partidos que precisam se corrigir, mas os políticos que precisam melhorar. Nos dias de hoje, explica ele, um governante trabalha duro no primeiro ano, mas o ritmo vai caindo e no quarto ano não trabalha mais. “É preciso trabalhar nos quatros anos”, declara.

A nossa balança comercial

Homero Scarso, do Ciesp, explica que as exportações foram muito bem se comparadas a 2020 na regional de Piracicaba, que reúne oito cidades ao todo.

“Passamos de US$1.561,1 bilhão para os atuais US$ 2.083,0 bilhões, portanto um crescimento de 33,4%, relativos ao período de 11 meses (janeiro a novembro de 2021). Pelo lado das importações, saímos de US$1.629,6 bi para US$2.457,9 bilhões, aumento de 50,8%, devido a uma série de fatores relativos à pandemia em 2020, muitos produtos que utilizamos nas exportações ficaram “represados” (falta de entrega), devido à produção ter sido afetada também em outros países, por isso o aumento maior (compensado) em 2021”, detalha o gerente.

De uma maneira geral, o aumento nas importações refletiu diretamente nos resultados das exportações, pois nosso produto têm alto valor agregado e necessitam desses componentes para manterem a competitividade e os negócios com nossos principais parceiros, segundo explica Scarso.

“Resumindo, foi um bom resultado apesar de todas as dificuldades e aprendizados encontrados e superados na trajetória ao longo de 2021”.

Para 2022, qualquer previsão se resume ao primeiro trimestre. “Vamos continuar tendo boas oportunidades de negócios com os nossos principais parceiros comerciais que são os Estados Unidos, Canadá, Colômbia, Austrália, Argentina, Peru, Chile, Paraguai e México. Isso tendo em vista que as exportações/importações levam em média de 90 a 120 dias, e também se o dólar valorizado e o real desvalorizado continuarem no mesmo patamar para não perdermos competitividade com nossos concorrentes”.

Sobre quem levará a melhor ou terá dificuldades em 2022, Scarso também analisa a curto prazo, ainda no trimestre inicial. “Se analisarmos para nossos principais produtos de exportação que são as máquinas, aparelhos e instrumentos mecânicos, produtos químicos orgânicos, açúcares e produtos de confeitaria, veículos automóveis, tratores, produtos cerâmicos, papel e cartão, máquinas, aparelhos e materiais elétricos, esses continuarão a ter um bom desempenho nesse período. Já os de bebidas, líquidos alcoólicos e vinagres, ferro fundido, ferro e aço, poderão ter mais dificuldades como ocorreu em 2021”.

Se olharmos, continua ele, para fora da nossa região e do estado, os setores da agropecuária e da indústria extrativa continuarão a ter boas oportunidades. “Embora não sejam predominantes por aqui, temos fabricantes de equipamentos para eles, trazendo um resultado muito interessante para os negócios em Piracicaba e região”, declarou.

Scarso destaca pontos positivos que poderão impulsionar a indústria e a economia nesse primeiro trimestre. Entre eles, a recuperação do mercado de trabalho e do setor de serviços; performance positiva da agropecuária e da indústria extrativa; queda da inflação; vacinação contínua e abertura da economia.

Entre os fatores desfavoráveis estão o aperto monetário em curso no Brasil; inflação elevada e amplificada pela desvalorização cambial; incerteza sobre os rumos das contas públicas; desemprego elevado etc.

O agronegócio

Bortoletto, da Coplacana, reforça a importância do agronegócio em 2021 quando as produções de milho e soja foram positivas. O milho sofreu um pouco na segunda safra, mas os preços compensaram.

Ele se recordou da seca e das geadas que resultaram em algumas perdas no campo. A cana de açúcar secou ainda no broto e precisou “rebrotar” e foi recolhida mais rapidamente. Os preços, porém, do açúcar e do etanol, foram melhores e houve recorde de lucratividade, mas não em produtividade.

O ano de 2021 também foi positivo para a pecuária com exportações lucrativas. “O Brasil conseguiu exportar muito de seus produtos e isso ajudou o nosso PIB (Produto Interno Bruto)”, apontou.

A pandemia do novo coronavírus foi e ainda é uma turbulência, diz Bortoletto, mas o agro conseguiu superar tudo isso.

Para 2022 o agronegócio terá algumas dificuldades pois os custos subiram muito, inclusive o valor dos combustíveis, dos insumos e das máquinas, segundo analisa Bortoletto. Os custos das safras se elevarão, alerta ele. Mas com mais chuvas haverá boa colheita.

Bortoletto lembra que a pandemia ainda está em curso, mas a esperança é que aos poucos a economia volte ao normal, o ano seja próspero e que os empregos sejam recuperados, pois a indústria e o comércio estão melhorando.

Nas eleições desse ano, o agronegócio vai observar o posicionamento de cada candidato. Ele entende que haverá dificuldades pois “acreditar na esquerda, que Lula é inocente, é um risco muito grande”. “Mas é isso aí, deixa para depois. Vamos falar que o setor em si estará muito bem”, declarou. (Com ABr)