Últimas Notícias
Natal
Presépio mais do que vivo
Montagem completa 50 anos em 2022, sempre com as mesmas características

Por Romualdo Cruz Filho

Coral Canto Alegre tece o pano de fundo para o Presépio Vivo

Crédito: Mateus Medeiros

Coral Canto Alegre tece o pano de fundo para o Presépio Vivo

“Pela Noite de Natal,

noite de tanta alegria.

Caminhando vai José,

caminhando vai Maria.

Só encontraram uma pousada dentro de uma estrebaria. Ali os dois ficaram até ao romper do dia. Veio ao mundo nesta noite dentro de uma estrebaria Entre o boi e o burrinho, Sem outra companhia”

Assim inicia o Coral Canto Alegre, que tece o pano de fundo para o Presépio Vivo, uma peça teatral sobre o nascimento de Cristo, o amor e a vida, formado basicamente por crianças e jovens, alunos da Escola de Música de Piracicaba Maestro Ernst Mahle. A montagem completa 50 anos em 2022, sempre com as mesmas características, mantendo-se fiel aos seus criadores, Cidinha e Ernst Mahle.

Este ano a direção do coro e das crianças ficou por conta da regente Tânia Perticarrari. É o primeiro exercício dela diante de um projeto que segue para mais 50 anos. A encenação carrega também uma emoção especial. Por causa da pandemia, a montagem sinaliza o retorno à ordem, a uma ordem possível. O fato é que o trabalho do casal tornou-se praticamente sinônimo de Natal em Piracicaba, esse período festivo de importância singular para todos nós. Por isso o tema também foi escolhido para abrir este caderno especial de Natal do Reencontro.

Reencontro na pandemia

Antes de voltarmos à cena do nascimento do Cristo Rei, vamos a um preâmbulo à parte, para tratar da pandemia. Somente aqueles que sentiram a morte por perto sabem a força do reencontro. Este seria o ponto de inflexão para o tecer de uma peça teatral representando um cenário em que a vida de fato esteve em perigo. Peça, por sinal, baseada em histórias reais, seja as que vimos pela TV ou aquelas que presenciamos em nosso dia a dia. Muitas pessoas tiveram essa triste experiência em família, no trabalho, na vizinhança. Perder um ente querido para a pandemia é um desastre imenso para todos nós. Estar em pé após longos dias entubados devido ao ar respirado, ao toque imprevisível, ao espaço compartilhado, à surpresa do invisível causa um sentimento difuso, perturbador, revelador da fragilidade humana. Mas é também uma dádiva a ser comemorada.

Quem sentiu o peso do infortúnio, ainda está de sentinela, até porque temos no ar agora as variantes do perigo, que persiste e pelo qual precisamos nos acautelar. Não devemos ser extremistas, é claro, pois já sabemos como nos comportar para garantirmos nossa segurança. No entanto, muitas famílias tiveram a sorte de passar ilesas e ver apenas da janela a dor alheia e não sentiram o peso do drama. Aventureiros arriscaram até um diálogo de alta periculosidade com o inimigo e, por sorte, passaram ilesos. Poucos aprenderam.

Com a Covid-19 a vida ganhou em mistério e a ciência foi desafiada em suas certezas. A lógica dos especialistas lesou o entendimento que tínhamos de naturalidade. Retiramo-nos ao silêncio de nós mesmos, questionadores, à espera de um sinal seguro de que o ar externo pudesse novamente ser respirado e compartilhado com segurança e sem barreiras. A distância forçada que tivemos que manter das pessoas que amamos também nos deixou marcas doloridas. Dois anos após dias sombrios, estamos vivos e novamente prontos para o reencontro.

Agora, é fato, depois de muita luta, podemos nos proteger e, ao mesmo tempo, nos reunir, compartilhar momentos comuns e sagrados, ao ruído de talheres e copos, falas soltas, mas repletas de significados, e muita gargalhada. Vacinados, sentimos mais segurança. Não é tempo ainda de abrirmos a guarda como gostaríamos. Mas não há motivo para evitarmos o abraço e brindarmos a vida, com responsabilidade. É Natal, tempo de repensar nossos atos com um novo olhar para aqueles que estão ao nosso lado, com uma saudade imensa da antiga normalidade. Mas com a experiência que nos fortalece, que nos engrandece. Bem-vindo ao Natal do reencontro.

As crianças e as forças da natureza

De volta à cena do Presépio Vivo, destaca-se a frase "Deus está nos detalhes". O Natal tem essa força de chamar a atenção para as coisas pequenas. Aquelas que podem nos surpreender pela sua beleza. Nada como um diálogo com as forças da natureza para reencontramos um novo estímulo para os dias que seguem. Esta força está nas crianças, nos adolescentes e jovens, que se expressam com tanta espontaneidade a ponto de provocar o entendimento adulto de mundo real. Expressão que quebra o padrão e abre as portas para a graça.

Desde sua concepção original, a peça é um testemunho singelo de que a vida pode ser reinterpretada a cada momento. Mescla pureza, sentimento pré-religioso e a poesia de quem constrói seus próprios símbolos. Por outro lado, é assistida por adultos, que fazem uma leitura seguindo outros códigos. Perceber o movimento de aproximação e de distanciamento entre cada uma das partes, criança, jovem e adulto, é um exercício curioso e uma atração à parte.

Vale destacar que Cidinha, nessa concepção artística, incorpora a fé Cristã em sua dimensão convencional, católica. É a tradição. Ernst traz a força do romantismo alemão, em sua versão goetheana, waldorfiana. Algo que parece denso, mas no fundo é pura diversão com os mais singelos dos sentimentos, onde as crianças brincam em campo sagrado. Juntos formam uma unidade criativa em que o que parece ser o senso comum, ganha em imprevisibilidade.

Capte o que vem no diálogo descompromissado com os personagens-chaves do roteiro:

Marcos, 16: "Fui boi durante dois anos, em outros dois tornei-me rei. Há três anos sou José. Ao lado de Maria, sigo em direção à manjedoura, local marcado para o nascimento de Jesus. Paramos ao lado do berço sagrado e ali permanecemos. Todo o ambiente é preparado pelos anjos. Meu papel consiste em andar em linha reta, parar em um local e assim permanecer durante toda a peça. Depois volto em linha reta. É curioso isso, apesar de ser uma interpretação tão simples, sei que as pessoas estão sempre atentas ao que eu faço e eu não faço nada".

Alessandra, 16, é a Maria. "Eu estava assistindo a uma das apresentações e dona Cidinha me disse que eu seria um bom anjo. Assim fui anjo naquele ano. No ano seguinte, me tornei Maria. Depois voltei a ser anjo. Agora sou de novo Maria. Minha mãe sempre fez teatro. Gosto de representar, de participar, porque antes a gente viajava para outras cidades com o Presépio Vivo fazendo apresentações. É legal, é divertido e a gente conhece muitas pessoas. No ano que vem acho que serei Maria novamente".

Lucas, 11, e Henrique, 10, fazem a dupla boi e burrinho. O primeiro diz: "Gosto de aprender sobre o nascimento de Jesus, o surgimento do Natal e como tudo aconteceu. Este é um momento de me soltar para Deus". Henrique conta que durante sua interpretação pensa em anjos, na família e na felicidade. "É aquilo que a gente tem". Em uma coisa são unânimes: "O que eu não gosto do papel é que dói muito a canela (porque eles precisam ficar durante todo o tempo ajoelhados). Mesmo assim, gosto de ser animal". Enquanto um dizia, o outro apenas meneava a cabeça concordando.

Seguindo o coro, chegam os pastores, as pastorinhas, todos papeis ocupados por crianças de 4 a 7 anos. Incorporam os personagens com graça, leveza e magia, como traça o roteiro. Até que a peça chega em seu ápice, com os reis do oriente.

Filippo, 9, se manifesta: "Desde quando eu era pastorzinho queria mesmo é ser rei mago. No segundo ano em que participei do presépio, fui burrinho. Desta vez era para eu ser boi, mas quando cheguei, a vaga de boi já havia sido ocupada. Então fui promovido a rei. Fiquei tão feliz". Filippo mira a Luz de Belém e segue impávido, do fundo da igreja, em passos triunfais, no último lugar da fila dos três reis magos, para o cumprimento de sua nobre missão. Como Balthazar, leva o incenso de presente ao filho de Deus.

Arthur, 10. O que você acha de participar do presépio como rei? "Acho muito legal. Fui convidado e aceitei. Sou rei porque sou alto". Ele é o "preto rei Gaspar", que em sua nova versão politicamente correta tornou-se apenas rei Gaspar, aquele que leva a mirra de presente a Jesus.

Outro olhar

Os adultos trazem um olhar sobre o Presépio Vivo de confirmação sobre os seus valores, que nas crianças operam de outra maneira. Visão da mãe de Filippo: "Eu fui educada em igreja católica, mas desenvolvi meu entendimento religioso pelo espiritismo. Isso não impede que possamos participar de uma apresentação como esta em qualquer local, em qualquer igreja. Defendo que se sintetizarmos todas as religiões, toda a força vem de uma mesma luz". Ela gosta de ver seus filhos participando do teatro porque isso faz com que eles compreendam essa relação com as diferenças e com a ideia central de que tudo converge para um mesmo ponto.

Francine, que comanda o piano, diz: "Este é um momento simbólico, de representação de algo muito importante para a gente. É tão bom ver as crianças envolvidas nesse ambiente de paz e amor verdadeiro".

Tânia Perticarrari encerra esse roteiro: "Me sinto muito honrada em dar sequência a esse trabalho maravilhoso do casal Mahle. Tentei fazer o máximo que pude, de coração. Fizemos acontecer da melhor maneira possível. Reunimos pessoas das mais diversas religiões em um só coro. Com o Presépio Vivo a gente se abre para uma grande oportunidade em que as pessoas podem estar juntas. As pessoas se unem para construir alguma coisa e assim criar um vínculo entre elas. É o resultado de uma verdadeira integração de pessoas. O mundo precisa muito dessa integração pessoal, presencial, que faz parte do crescimento humano. Estar presente é o momento verdadeiro. Isso está fazendo falta e as pessoas estão precisando disso. O público vive aquele momento e as pessoas saem dali transformadas.

"A presença das crianças do presépio é uma coisa que emociona, que une. Não é só pelas crianças, mas pelos pais e todos aqueles que vieram para assistir. Os pais se comprometem e oferecem aos seus filhos outra vivência, que as crianças nunca vão se esquecer.

"A música ampliou o mundo dessas crianças. E o presépio mostra que você vai crescendo e galgando outras posições. A honra é estar diante de um projeto que vai completar meio século. Acho que nós que assumimos essa responsabilidade temos como obrigação dar continuidade ao legado da dona Cidinha e do maestro Mahle. Estamos precisando de referência, de coisas que permanecem". O Coral Canto Alegre é patrocinado pela empresa Oji Papéis Especiais.