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Folhas secas
A natureza é arte
Pedagoga Viviane Gatti Braga borda paisagens, poemas e nomes em folhas secas de árvores

Por Larissa Souza

Algumas obras de Viviane ficarão expostas na Casa do Povoador até o dia 11 de dezembro

Crédito: Mateus Medeiros/Gazeta de Piracicaba

Algumas obras de Viviane ficarão expostas na Casa do Povoador até o dia 11 de dezembro

“A beleza está em você trazer a sua obra junto com a de Deus”. Assim a pedagoga Viviane Gatti Braga define define o seu trabalho de bordado feito em folhas secas. Parte dessas obras integram a exposição Folheando, que foi aberta ontem e permanecerá na Casa do Povoador até o dia 11 de dezembro.

A história de Viviane com a arte começa já na infância, quando ela coloria pedras e aventurava-se com a produção de obras manuais. O aprendizado era diário, com pesquisas e testes. Ela nunca fez nenhuma aula de artesanato ou de outro tipo de técnica artística, adquiriu experiência sozinha, de forma autodidata. Tempos depois, ministrou aulas de artesanato para um grupo de adultos.

Quando tornou-se professora, levou para a sala de aula da Escola Waldorf Novalis a sua experiência com os trabalhos manuais, incentivando os alunos a sempre criarem projetos novos. “O homem é o único ser que tem essa possibilidade de colocar coisas no mundo através das mãos e criar coisas bonitas”, comentou.

Em um desses dias de trabalho, uma aluna levou uma folha com um nome bordado, o que chamou a atenção de Viviane. Ela realizou pesquisas sobre a técnica na internet e descobriu que há diversos artistas que trabalham com esse tipo de bordado no país.

Apaixonada pelas obras desse estilo, ela resolveu aprender a bordar em folhas secas. Sua primeira produção, feita há cerca de dois anos, foram marcadores de páginas com palavras bordadas. “Era uma folha pequena com só uma palavra, era muito simples”, afirmou.

Depois, começou a produzir folhas com nomes de crianças, para presentes, itens decorativos para festas e casamentos, entre outros. Ela contou à Gazeta que, no ano novo, costuma vender muitas folhas bordadas com a palavra “gratidão”.

O conhecimento sobre a técnica foi aumentando com o passar do tempo. Logo a pedagoga aprendeu a bordar obras mais detalhadas e complicadas já que, quanto mais detalhes, mais passadas de agulha pela folha e mais chances de ela quebrar.

Outro desafio elencado por ela foi acostumar-se com a pequena agulha usada para o bordado em folhas. “O mais difícil é colocar a linha na agulha”, ela brinca. Mas os percalços nunca a fizeram desistir.

No início, quando bordava apenas palavras, ela as fazia à mão livre. Depois, quando começou a criar ilustrações mais complexas, passou a desenhá-las na folha antes de bordar.

Quando Viviane contraiu Covid-19, no final de julho, ela precisou ficar 15 dias em quarentena em seu quarto. Com tempo livre e inspirada pelo aniversário de Piracicaba, celebrado no dia 1 de agosto, ela teve a ideia de bordar nas folhas cenários relacionados à cidade.

A piracicabana criou diversos bordados com pontos turísticos, animais característicos da cidade e retratos de celebrações tradicionais. Para algumas paisagens, ela também bordou, em outras folhas, poesias para acompanhá-las. “Eu ia bordando e brincando com isso porque escrever também é uma brincadeira”, contou.

Com uma série de folhas bordadas, ela decidiu fazer uma exposição para exibir esse delicado trabalho que retrata as belezas de Piracicaba.

Além de dar visibilidade para esse tipo de bordado, o trabalho de Viviane também traz um novo olhar sobre a natureza. “Acho que tudo que você usa da natureza fica mais bonito”, falou. Além disso, a exposição evidencia os diversos tipos de folhagens que fazem parte do cenário da cidade e, muitas vezes, não são notadas.

Modo de fazer

Para conseguir executar o bordado, é preciso utilizar folhas mais duras, segundo ela, como a falsa figueira, que pode ser encontrada na Rua do Porto. Outros tipos de folha que ela usa são a pata-de-vaca e a folha de jaca.

Algumas folhas são de árvores plantadas em sua casa, mas muitas delas são encontradas durante as caminhadas da pedagoga pela Rua do Porto, Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) e demais pontos turísticos de Piracicaba. Outras são presentes de amigos, como uma trazida de um jardim botânico de Singapura.

Depois de coletar as folhas, ela as coloca entre duas tábuas ou em papéis toalha entre livros pesados para secá-las. Segundo ela, essa parte do processo é demorado.

O bordado é feito com linhas de meada de ponto cruz. A meada tem seis fios, mas ela utiliza no máximo quatro para bordar.

Ela contou à Gazeta que no período em que estava em repouso levava mais ou menos três dias para finalizar um bordado. Em sua rotina habitual, ela executa os trabalhos em seu tempo livre. “Onde eu vou eu levo a folha para bordar”, contou.

O local de trabalho de Viviane varia, pode ser o sofá da sala, a mesa da cozinha, ou outro lugar em que se sinta confortável e com espaço suficiente para evitar acidentes. “As vezes você está ali e bate o braço, aí já rasga. Eu falo para os meus filhos ficarem longe de mim”, ela brinca.

As folhas ficam armazenadas em molduras para conservá-las. Os clientes geralmente as compram para utilizar na decoração ou presentear alguém.

Como Viviane concilia os bordados com o trabalho na escola, o número de encomendas que aceita é restrito. O valor das obras depende do seu detalhamento.

Exposição

A exposição Folheando é composta por 40 folhas bordadas e outros trabalhos manuais que homenageiam a cidade de Piracicaba e seus pontos turísticos. A curadoria é de Rafael Gonzaga.

Entre os cenários retratados no projeto estão o Museu Prudente de Moraes, a Rua do Porto e o Largo dos Pescadores.

Há bordados inspirados em celebrações que fazem parte da cultura piracicabana como a Festa do Divino. O movimento que os peixes fazem todos os anos para a desova, a Piracema, também aparece em uma das folhas. “É uma homenagem a essa cidade que é tão bonita e que eu gosto tanto”, comentou Viviane.

Alguns dos quadros da exposição já foram vendidos.