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Livro da historiadora Fabiana Junqueira relata movimento operário no século passado em Piracicaba

Por José Ricardo Ferreira

Historiadora Fabiana Junqueira: livro que retrata o movimento operário em Piracicaba

Crédito: Franciele Diorio de Souza

Historiadora Fabiana Junqueira: livro que retrata o movimento operário em Piracicaba

O livro “Caipiras, uni-vos! uma breve história da classe operária em Piracicaba no século XX” é uma obra da historiadora Fabiana Ribeiro de Andrade Junqueira, 31, lançado em agosto. O livro trata da história dos trabalhadores de diferentes categorias no município.

Fabiana atualmente desenvolve o Doutorado em História Social do Trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com tese dedicada ao passado dos trabalhadores metalúrgicos no município.

Sua obra é o resultado das pesquisas que está realizando no processo de doutoramento, que deverá ser concluído em 2023. O prefácio é do escritor Cecílio Elias Netto.

Nascida em São Bernardo do Campo, Fabiana é radicada em Piracicaba há 24 anos. O livro traz a análise das principais greves de trabalhadores no decurso do século XX, entre elas, a greve geral de 1917, que paralisou, entre outras fábricas, o Engenho Central de Piracicaba e a tecelagem Arethusina – nome da antiga fábrica Boyes.

De acordo com a autora, nessa época, os operários e operárias trabalhavam entre 14 e 16 horas diárias, sem direito aos finais de semana e a férias remuneradas. Os obreiros de Piracicaba se uniram aos de outras cidades brasileiras, em 1917, na reivindicação das jornadas de oito horas e pelo aumento salarial de todos os trabalhadores, que sofriam, naquele período, os efeitos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Abaixo os principais trechos da entrevista à Gazeta de Piracicaba:

Gazeta de Piracicaba: O que a inspirou para escrever o livro; por que esse tema?

Fabiana Junqueira: Eu me interesso pela história dos trabalhadores desde os primeiros anos da faculdade. No mestrado, estudei os metalúrgicos da capital. Foi durante esse período que percebi que os grandes centros urbanos, como São Paulo, já haviam sido contemplados com inúmeras boas pesquisas sobre a classe trabalhadora. No interior do estado, ao contrário, havia uma grande carência de estudos sobre a classe operária. Inicialmente pensei que esse quadro fosse um reflexo da escassez de documentos de períodos mais remotos – o que não é, necessariamente, um impeditivo para realizar um estudo sobre esse tema, mas cria uma dificuldade para o historiador. Quando visitei fábricas e sindicatos em Piracicaba, definitivamente percebi que esse não era o caso. Há muitos documentos preservados e uma gama infinita de possibilidades de estudo! Foi nesse momento que decidi me debruçar sobre a história daqueles que trabalharam no chão das indústrias do município.

Gazeta: Quando começou e concluiu a obra?

Fabiana: A pesquisa que resultou no livro começou quando eu iniciei o doutorado em 2017. Conclui a obra em 2021.

Gazeta: Quais foram suas fontes de pesquisa?

Fabiana: Pesquisei várias fontes em diferentes arquivos. Foram mais de 2 mil documentos do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (o antigo DOPS) lidos no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Esses documentos, além da visão dos policiais e delegados sobre os trabalhadores, nos oferecem informações sobre as perseguições sofridas pelos operários no município. Além dessas fontes, analisei muitas atas de reuniões dos sindicatos de Piracicaba, fichas de sócios, particularmente dos metalúrgicos, assim como processos trabalhistas. Para acompanhar o desenvolvimento das greves. Por exemplo, utilizei matérias dos jornais locais e do estado e para entender um pouco mais das experiências individuais e coletivas da classe obreira. Recorri a entrevistas com trabalhadores e com lideranças do movimento operário e sindical da cidade.

Gazeta: Quais foram as dificuldades? Perdeu horas de sono, finais de semana?

Fabiana: No processo de escrita e pesquisa é comum o historiador se debruçar sobre as fontes, livros sobre a história da cidade e, no meu caso, sobre a história do trabalho no Brasil. Todavia, nunca é uma perda de horas, de tempo ou finais de semana. Ao contrário, é empolgante conhecer o passado da cidade onde eu cresci.

Gazeta:O que mais a surpreendeu?

Fabiana: Creio que observar como pessoas comuns mudam os rumos da história é sempre marcante. É comum pensarmos que, por estarmos no interior, nossas ações são menos impactantes do que se estivéssemos nos grandes centros urbanos, como no município de São Paulo. No entanto, quando um operário piracicabano paralisou o Engenho Central até que fossem concedidas 8 horas de trabalho em 1917, ele contribuiu para que a mobilização que começou em São Paulo atingisse âmbito nacional. Vale dizer que as jornadas de trabalho eram de 14 ou até mesmo 16 horas diárias naquela época e os operários não tinham direito a férias, finais de semana e nem mesmo previdência social.

Gazeta: Como você define Piracicaba no movimento operário, isto é, o que o movimento perdeu e ganhou nos últimos anos?

Fabiana: A história do movimento operário piracicabano é muito rica. É uma história de lutas e de conquistas. Entretanto, nem sempre os resultados dessas lutas são vividos pela geração que foi para a rua por direitos e melhorias no mundo do trabalho. Por exemplo, em 1919 os operários piracicabanos realizaram uma importante greve pela jornada de oito horas. Foram duramente perseguidos, tachados preconceituosamente de anarquistas. Demorou um bom tempo para que, de fato, os operários trabalhassem 8 horas, mas hoje muitos de nós usufruímos de uma reivindicação das primeiras décadas do século. Além disso, a história do movimento operário é uma história de lutas coletivas. Os operários conquistam algo quando se unem e os piracicabanos se uniram aos operários de outras cidades e estados, ao longo de todo o século 20, por mudanças nas condições de vida e de trabalho.

Gazeta: E o papel das mulheres operárias?

Fabiana: Em 1963, as mulheres operárias da Boyes deram um grande exemplo de solidariedade quando decidiram não voltar ao trabalho até que todos os trabalhadores do estado fossem atendidos no aumento salarial. Mesmo quando a direção da Boyes já havia prometido seguir o que fosse decidido em São Paulo, elas permaneceram paradas e de punhos ao alto. O passado dos operários nos ensina a acreditar na mudança, por nós, ou ao menos pelos que virão depois de nós.

Gazeta: Como relata o aspecto político e ideológico do movimento na cidade em seu livro?

Fabiana: Eu retrato no livro que a classe operária piracicabana foi bastante heterogênea em suas adesões políticas e que o cenário obreiro na cidade foi sempre um campo de disputa para as mais variadas correntes políticas e ideológicas da direita e da esquerda.

Gazeta: É a sua primeira obra? Pretende produzir mais livros?

Fabiana: Sim, foi o primeiro livro lançado. No entanto, alguns resultados das minhas pesquisas já foram publicados em formato de artigo na revista Mundos do Trabalho e na revista Entropia. Pretendo publicar, em breve, a tese de doutorado que eu venho desenvolvendo na Unicamp sobre a história dos trabalhadores metalúrgicos do município.

Gazeta: Quais as suas conclusões pós-obra, como ela foi aceita e como repercutirá na sociedade?

Fabiana: Bem, eu gostaria de destacar que, embora“Caipiras, uni-vos!”seja o resultado das pesquisas que venho desenvolvendo no Doutorado, não escrevi esse livro pensando apenas no público acadêmico. Em Piracicaba, muitas pessoas tiveram um pai que trabalhou na Dedini ou uma tia que trabalhou na Boyes. O livro foi escrito para que essas pessoas pudessem conhecer um pouquinho do passado compartilhado por muitos operários e operárias do município. Escrevi esse livro também para os trabalhadores e eu realmente desejo que eles gostem. Como eu mesma digo no livro, essa singela contribuição não pretende dar conta de toda a história do movimento operário em Piracicaba. Trata-se apenas de uma e breve história da classe obreira. Espero que muitas outras sejam ainda publicadas por vários outros historiadores.

*O livro pode ser adquirido pelo site da Editora CRV: www.editoracrv.com.br.