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Situação de rua
Nova realidade da Praça José Bonifácio
Diariamente, são cerca de 85 moradores de rua que vivem em um antigo cartão-postal da cidade

Por Romualdo Cruz Filho

São pessoas das mais diversas procedências. Há piracicabanos, nascidos nas cidades da região, nordestinos e cariocas

Crédito: Mateus Medeiros

São pessoas das mais diversas procedências. Há piracicabanos, nascidos nas cidades da região, nordestinos e cariocas

Maikon, Alexandre, Edvaldo, Marcos e Luiz Gustavo. Invariavelmente, são nomes de personalidades familiares que compõem a identidade do país, que dão o colorido à cultura nacional com seus planos, suas ações e emoções contidas diante das dificuldades do dia a dia. Em Piracicaba, no entanto, eles sintetizam a nova realidade da Praça José Bonifácio, cartão-postal da cidade, onde "convivem" diariamente cerca de 85 moradores de rua.

São pessoas das mais diversas procedências. Há piracicabanos, nascidos nas cidades da região, nordestinos e cariocas. Uns vivem desde criança nas ruas da cidade, outros chegaram recentemente. Há os que perderam o rumo quando, casados, se separaram, ou quando seus pais se separaram. Existe o grupo dos que cometeram algum delito e acabaram na prisão, quando saíram, foram rejeitados pela família.

No embalo da cachaça, a turma do pinga fogo não vive sem a 'marvada' e flanelam para garantir seu frasco básico de Pedra 90. Compondo esta pintura atual, os visitantes "em condições de rua" aproveitam para não fazer nada além do que os demais já fazem com autoridade e experiência.

Irineu Bigatão Júnior, proprietário da Banca Central, em frente ao Banco do Brasil, acompanha a dinâmica da Praça José Bonifácio há anos. Ele aprendeu a conviver naquele reality Show, onde homens tomam banho de mangueira diante de transeuntes atentos, fazem dos jardins varais para secar suas roupas, dormem sob marquises de bancos, flanelam para a grana da cachaça, e estão sempre à espera de um bom cristão que lhes tragam café da manhã, almoço e janta.

Alguns se drogam com o que há de mais barato para fazer a cabeça e seguem o espetáculo de zumbis reais no coração da cidade.

Bigatão chegou a contar. São cerca de oito ONGs ligadas às igrejas que garantem praticamente a alimentação de todos e acabam alimentando aquele drama social. Quando está próximo do horário da bóia, um grito de que a marmita está chegando é ordem unida e sai gente de todo quanto é canto para aumentar a fila dos beneficiários.

"Até quem não precisa pega a fila porque a comida é boa". Segundo ele, há uma espécie de rede de ajuda que deve estar dando dinheiro para alguns. "É interessante vender projeto de assistência, receber o dobro para ofertar metade da metade".

"Esse pessoal passa a noite em condomínios. Há o condomínio Luso Brasileiro, na esquina da travessa da Catedral com a Moraes Barros, que está lotado. Tem o condomínio do Itaú, que também está lotado. Só o condomínio Sudameris ainda tem vaga, mas também está bem ocupado", conta Bigatão, com uma ironia peculiar de quem teve que se adaptar para não sofrer mais. "Atrás da minha banca virou banheiro. Todo dia a primeira coisa que eu faço é faxina da latrina". Seu olhar é puro realismo. "Quem tem a grana para o corote de pinga e para o cigarro vira rei. É como na cadeia".

Segundo Bigatão, a prefeitura precisa tomar a frente e resolver esse problema social. "Deveria ao menos instalar banheiros químicos aqui, porque depois de certa hora da noite os banheiros públicos fecham e sobra pouca alternativa, como a minha banca".

Palavra da rua

Alexandre é do Rio de Janeiro e cata papelão para se manter. Vive na praça porque, segundo ele, as estruturas da prefeitura não funcionam. "Eles falam que vão nos ajudar, mas não ajudam de fato. Falta estrutura para nos oferecer alguma dignidade". Edvaldo é mecânico. Marcos é pintor. Para eles, a saída seria haver uma fazenda onde pudessem trabalhar na lavoura e se desintoxicar. "Nós sabemos trabalhar, só precisamos de alguém que nos convide". Ambos afirmam que estiveram presos e que já pagaram suas dívidas com a Justiça, precisam agora de oportunidades. Luis Gustavo conta nos dedos os dias para "deixar essa vida". Ele revelou que o pastor da igreja Universal vai ajudá-lo com casa e trabalho. Gustavo está há três anos morando na praça e vivendo de reciclagem. Caiu no erro, mexeu com droga, foi preso e a família não quis mais saber dele. "Graças a Deus, falta pouco para minha vida mudar".

SMADS

Questionada, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento social (SMADS) apresentou a relação de atividades que desenvolve para enfrentar este problema social da cidade, mas que não demonstra resultados efetivos. Dentre elas estão:

Criação do Comitê PopRua de Piracicaba, que visa propor estratégias para acesso às políticas públicas de saúde, educação, previdência, assistência social, moradia, segurança, cultura, esporte, lazer, trabalho e renda; e visa a elaboração do Plano Municipal da Política para a população em situação de rua. Ações conjuntas nas ruas, em diferentes pontos da cidade, realizadas pelo Centro Pop com o Caps AD e Consultório na Rua.

Operação Inverno, com força-tarefa na busca ativa do Seas (Serviço especializado em Abordagem Social), juntamente com a Guarda Civil. Preparação dos usuários do Centro Pop interessados para ingresso no Programa Frente de Trabalho. Realização do Censo da População em Situação de Rua de Piracicaba, apresentado em setembro deste ano, com o objetivo identificar o perfil socioeconômico das pessoas em situação de rua e a utilização dos serviços públicos, reunindo informações a respeito do cotidiano desta população diante do cenário atual de pandemia.

“A partir dos dados, estão previstas ações de busca ativa de pessoas em situação de rua em algumas condições, com possíveis encaminhamentos em cada caso, tais como idosos, mulheres, pessoas com vínculos familiares, pessoas sem documentação para novas emissões e acesso aos serviços, catadores de materiais recicláveis”.