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Arte cemiterial
Saudade: mudança na arquitetura
Historiador que escreveu livro sobre o tema detalha transformações

Por Larissa Souza

Obras expostas nas sepulturas representavam a dor das famílias

Crédito: Mateus Medeiros

Obras expostas nas sepulturas representavam a dor das famílias

De esculturas em mármore de carrara a azulejaria. Os elementos arquitetônicos aplicados nas sepulturas passaram por muitas mudanças desde o início do século 19 até os dias de hoje.

Segundo Paulo Renato Tot Pinto, historiador e membro da diretoria da ABEC (Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais), no Cemitério da Saudade ocorreram transformações significativas nesse aspecto, que se relacionaram, principalmente, com a história e economia do país.

Paulo Renato, juntamente com Maurício Fernando Stenico Beraldo, também historiador, escreveu o livro “Somos Todos Iguais”, que fala das autoridades ali sepultadas e da arquitetura.

Ele conta à Gazeta que do século 19 até o início do 20 as famílias de grande poder aquisitivo despendiam de um alto valor em dinheiro para a construção das sepulturas. “Eles queriam monumentalizar-se dentro do cemitério e construir coisas fantásticas”, disse.

O principal material utilizado por eles, na época, era o mármore. Paulo Renato cita como exemplo a escultura de um anjo de mármore de carrara encomendada de Milão para a sepultura da família Zanotta, da qual fazia parte um dos construtores do cemitério, Carlos Zanotta que, diferente de seus familiares, não foi sepultado em Piracicaba. Além do alto custo da escultura, o historiador lembra que, na época, o meio de transporte utilizado para importar equipamentos de locais distantes era o navio, então a compra desses itens era restrita às pessoas que conseguiam arcar com os custos da obra e do transporte.

Após a Primeira e a Segunda Guerra Mundial o mármore tornou-se um material caro e escasso no Brasil, o que fez com que a população passasse a optar por fazer suas sepulturas com granito.

Com o encarecimento também do granito, surgem os trabalhos com pisos e azulejos pintados. “Eu cheguei a catalogar mais de 90 sepulturas com esse trabalho, feitas pelo Atelier Sarasá”, contou.

As mudanças na estrutura das sepulturas também estão relacionadas com a alteração do modo de ver a morte. O membro da diretoria da ABEC explica que, antes do século 40, a morte era vista de forma individualizada e as pessoas eram enterradas sozinhas. Depois, passou-se a utilizar túmulos grandes, com até dois andares, para toda a família. Também a partir da década de 40, os símbolos e obras sacras “perderam força”, segundo ele.

Além disso, o historiador acredita que a população afastou-se da experiência da morte e do luto com o passar dos anos. Em meados do século 19, era comum que os familiares acompanhassem seus entes queridos até o momento da morte, que acontecia na própria residência deles.

Já a partir dos anos 40 esse momento passou a acontecer em hospitais. “Com a morte acontecendo nos hospitais, ela acaba ficando mais longe da gente, e acho que isso também reflete nos cemitérios”, falou Paulo Renato Tot Pinto.

Para ele, no momento, a cremação está mais em evidência do que os enterros em cemitérios. “Cada vez mais os espaços dos cemitérios vão ficando para trás”, falou.