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Água e alternativas
Rio Piracicaba vive momento crítico: é comum aparecerem pedras quando não vem a chuva

Por José Ricardo Ferreira

Crises ambientais prejudicam também o fornecimento de energia elétrica

Crédito: Mateus Medeiros

Crises ambientais prejudicam também o fornecimento de energia elétrica

Das rodinhas de conversa a grandes eventos, o tema aquecimento global é cada vez mais frequente em todo o mundo. O efeito estufa não é mais uma suspeita, como no passado. Hoje existem dados concretos e implacáveis que provam que algo está muito errado com o clima.

Cidades, como Piracicaba, estão cada vez mais escaldantes e percebemos, a cada ano, menos água nos rios que abastecem as zonas urbanas e rurais.

E os impactos não aparecem apenas nas torneiras secas em épocas de estiagem. Crises ambientais prejudicam também o fornecimento de energia elétrica e a produção de alimentos. Desequilíbrios climáticos produzem grandes tempestades, secas, invernos intensos (ou ausência de inverno), ondas de calor, incêndios, doenças, degelos nos polos etc.

Piracicaba conta com o projeto “Corredor Caipira – Conectando Paisagens e Pessoas”. Ele é realizado pelo Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão Universitária em Educação e Conservação Ambiental (Nace-Pteca) da Esalq/USP e pela Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq), com patrocínio da Petrobras. Girlei Cunha é engenheiro florestal e consultor florestal deste projeto.

“Mais do que falta de água é a falta de qualidade nos recursos hídricos que estão disponíveis. Quantas “bicas” e ribeirões existem no território de Piracicaba que poderiam ser potáveis mas não são?”, aponta ele.

A questão do uso dos recursos hídricos, explica o engenheiro, é um dos principais problemas para o desenvolvimento futuro de Piracicaba. “Já estamos em uma fase crítica e qualquer aumento expressivo da população já é proibitivo, porque não há água para todos com o atual nível de consumo. Além da preocupação com o modo de uso do solo na zona rural, a população da zona urbana também deveria dar sua contribuição, reduzindo o consumo, não desperdiçando e aumentando as áreas permeáveis do solo, nos quintais e jardins, para permitir que a água das chuvas infiltre na terra e alimente os lençóis freáticos. A captação da água dos telhados e sua utilização para fins de limpeza, descarga e rega de plantas é outra medida que deve ser cada vez mais incentivada”, orienta ele.

Em pleno risco de racionamento, ainda se vê pessoas lavando calçada, carros, quintais com água tratada. Faltam campanhas contra isso ou é preciso multar?

“Sim, faltam campanhas de educação ambiental e faltam também instrumentos legais que possibilitem a autuação dos munícipes que fazem uso inadequado desse recurso vital. E é uma situação bem complicada quando vemos um vizinho usando a água tratada para varrer como se fosse uma vassoura “hidráulica”. Não é raro também se ouvir, como resposta, que “a água é minha, eu que pago a conta”.

Esta resposta não corresponde à verdade. Não pagamos a água, quando quitamos a fatura do Semae estamos pagando basicamente o custo de captação, tratamento e distribuição da água e a coleta e tratamento do esgoto e não o bem “água” propriamente dito. Esta, para ser produzida, depende das chuvas, da infiltração no solo, do tipo de uso do solo, da presença de florestas de proteção nas áreas de preservação como falado anteriormente. Dessa forma, podemos considerar que a água que consumimos hoje em nossa cidade não é totalmente paga pelo consumidor final, apenas reembolsamos parte dos valores gastos no seu fornecimento e posterior coleta e tratamento após ser usada e descartada pelos ralos”, explicou Girlei.

É preciso, disse ele, um imenso esforço para enfrentar a crise da água. “O primeiro passo é enxergar a atual situação hídrica como uma verdadeira crise ou problema que deve ser enfrentado diretamente, sem paliativos ou soluções transitórias. É necessário aumentar a oferta de água e, concomitantemente, reduzir o consumo. As perdas do sistema de distribuição de água devem ser reduzidas ao máximo. O aumento na disponibilidade hídrica é bem mais complexo e passa pelo manejo de bacias hidrográficas, especialmente na melhoria das práticas de conservação dos solos nas zonas rurais da região, proteção às nascentes e cursos d´água com a restauração de florestas nativas nas Áreas de Preservação Permanente e impedindo o livre acesso do gado nesses espaços”, explicou.

Avanços

Embora os problemas tendem a aumentar, também ocorreram avanços. “Olhando para o Brasil em uma perspectiva de algumas décadas, desde os anos 1990 do século passado temos experimentado uma evolução bastante positiva tanto na criação de marcos legais para proteção de recursos hídricos, proteção da biodiversidade, licenciamento ambiental de atividades potencialmente prejudiciais ao meio ambiente, saneamento básico, disposição e manejo de resíduos sólidos etc. As leis sobre esses temas básicos são importantes porque permitem aos órgãos fiscalizadores e à própria Justiça, através de ações do Ministério Público, a defesa de interesses públicos relacionados ao meio ambiente. A presença na mídia, com reportagens sobre o meio ambiente é outro fator bastante positivo e importante, por atuar não apenas na denúncia de problemas, mas também na formação da cidadania”, explicou.

Houve falta de cuidados

A missão de economizar água não é apenas dos cidadãos. Governos em todos os níveis também falharam em suas responsabilidades. “Piracicaba e a região como um todo, talvez boa parte do Estado, enfrentam problemas no gerenciamento dos recursos hídricos. Nós, na qualidade de consumidores, temos a percepção de falta de água, mas esse não é o termo mais preciso a ser utilizado, porque a água, embora em menor quantidade, continua correndo nos ribeirões e rios da nossa região”, explicou o engenheiro.

Segundo ele, a escassez de água em quantidade e qualidade é resultado de uma série de ações com raízes históricas e culturais que permanecem até hoje. “É de conhecimento geral que a água que alimenta os rios vem das chuvas, mas antes dela chegar aos rios, há um longo caminho, que se inicia quando a chuva chega ao chão. Nesse ponto está um dos momentos mais críticos, porque para alimentar os rios, a chuva precisa infiltrar no solo e não simplesmente escorrer sobre ele causando as enxurradas. A infiltração da água no solo depende da porosidade deste e esta porosidade é dependente do tipo de cobertura que o solo apresenta e do manejo a que está submetido”, apontou Girlei.

Em terra dura e compactada, a água não consegue infiltrar com a mesma facilidade com que penetra o solo de uma floresta, por exemplo. “Mas entre esses dois extremos, há uma série de possibilidades de uso do solo que podem favorecer o processo de infiltração, entre elas aquelas soluções relacionadas à conservação dos solos, como cultivo mínimo, plantio em curvas de nível, incremento dos níveis de matéria orgânica do solo, cultivos perenes etc”.

O papel do Poder Público, diz o engenheiro, varia conforme a esfera de poder, quer seja municipal, estadual ou federal, cada uma delas tem diferentes funções. “Em nível municipal é urgente o desenvolvimento de soluções técnicas e operacionais que permitam aumentar a disponibilidade hídrica especialmente para as épocas de estiagem, como a que estamos enfrentando neste momento. Isso passa, por exemplo, pela implantação de reservatórios que possibilitem o acúmulo de água em quantidade suficiente para o abastecimento da cidade por longos períodos. Hoje Piracicaba depende principalmente da vazão do rio Corumbataí, onde ocorre a maior parte da captação para o consumo da cidade. Esta grande dependência é bastante arriscada, podendo haver um colapso do sistema em períodos de estiagens extremas ou mesmo por algum acidente que provoque por exemplo contaminação desse manancial que impossibilite a captação e uso dessa água”, declarou o engenheiro.

A influência das florestas

O baixo nível dos mananciais durante o período de estiagem é motivo de muita preocupação. Na região de Piracicaba, o cenário atual aponta para a possibilidade de uma crise hídrica em 2022 pior do que a registrada em 2014. Uma das questões apontadas pelo projeto “Corredor Caipira” como um agravante para problemas de abastecimento de água é a degradação das florestas, especialmente num momento em que há um aumento de queimadas em áreas de vegetação nativa. “O solo sem vegetação florestal tende a ficar menos permeável, a água tende a escorrer mais superficialmente. Com isso, acontece a erosão e o assoreamento dos cursos de água”, afirma o engenheiro florestal Germano Chagas, um dos coordenadores técnicos do projeto. “Consequentemente, diminui a capacidade de estoque de água para o abastecimento público, o que resulta nessas crises hídricas pelas quais temos passado atualmente”.

Com relação às queimadas da vegetação nativa, Chagas aponta que o impacto do fogo pode ser considerado maior no que diz respeito às árvores jovens que, muitas vezes, acabam não resistindo. “Com a morte das jovens, não vamos ter as adultas no futuro. E com a morte das árvores adultas atuais, a floresta tende a entrar em colapso por não ter esse processo de sucessão florestal”, explica.

Quanto à fauna, além das mortes de animais causadas pelo fogo, Chagas explica que a redução da vegetação nativa diminui a oferta de alimentos e de abrigos e, com isso, as populações de regiões queimadas precisam procurar outros locais para viver o que pode gerar um novo problema. “Muitas vezes, essa migração resulta em conflito entre as populações de regiões não queimadas com essas populações que estão fugindo do fogo. Então, traz toda uma interferência na dinâmica das populações animais”, explicou.