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Dia do Médico
A força do trabalho coletivo na pandemia
Em data comemorativa à categoria, Hamilton Bonilha enfatiza a força do trabalho coletivo

Por Romualdo Cruz Filho

Crédito: Mateus Medeiros

"Vamos ter que conviver com essa doença por um bom período"

“Essa pandemia nos mostrou que a melhor forma de dar uma assistência qualificada ao paciente é mantendo na rede hospitalar e de atenção básica uma equipe multidisciplinar, coesa e integrada, composta por enfermeiras, fisioterapeutas, farmacêuticos, médicos, serviço social, psicólogos, entre outros profissionais da saúde. Não existe trabalho solo diante de um problema dessa envergadura. A Covid-19 nos ensinou sobre a necessidade do investimento nesses profissionais para salvar vidas e garantir o bem-estar do paciente". Esta é mensagem central que o infectologista Hamilton Bonilha deixou para os seus pares nesta data, em que se comemora o Dia do Médico.

À frente da Diretoria Regional de Ensino (DRS-X) durante o período mais crítico da pandemia, o profissional, que atua há 36 anos em Piracicaba, mantém-se confiante diante da realidade do momento. Seu otimismo está diretamente relacionado aos avanços da ciência e ao aprendizado profissional. "Novos avanços estão acontecendo. Novos medicamentos ainda mais eficazes estão surgindo, que são capazes de atuar com mais resolutividade na desinflamação do organismo, oxigenando o sistema respiratório. É isso que salva vidas".

Segundo estudos do especialista, somente quando a vacinação alcançar de 75 a 80% de cobertura, o que deve acontecer em Piracicaba no início do ano que vem, a população poderá deixar de usar a máscara e retornar à vida dentro de sua normalidade plena. "Creio que vamos ter que conviver com esta doença por um longo período, mas na sua forma mais branda. A não ser que aconteça algo diferente, porque se trata de um vírus que gosta de aglomeração e transmissibilidade, para que ele tenha cada vez mais poder de mutação e de agressão".

Para a população, ele dá um único recado: "Vacine-se, porque todas as doenças respiratórias só foram superadas com a vacinação. Vivemos em um país com um programa de imunização avançado. A Agência Reguladora (Anvisa) nos dá essa segurança técnica para que a população se sinta protegida e tenha a certeza da imunização para erradicar esta doença".

Em seu corre-corre do dia a dia, tem notado nos hospitais uma redução acentuada de pessoas com a doença e necessitando de internações. “À medida que reduz a transmissão, reduz o número de casos. Isso acontece especialmente pela vacina. Estudo recente, prestes a ser publicado, realizado na Associação Americana de Basquete (NBA, sigla em inglês), com 163 funcionários e jogadores, separou essas pessoas em dois times: aqueles que estavam vacinados e daqueles que não estavam. Ambos tiveram Covid-19. Pelas análises e monitoramento, foi identificado que a carga de vírus dos dois grupos era diferente. A carga maior se deu no terceiro dia de contágio. Os vacinado, além de evitar formas graves da doença, reduziram drasticamente o índice de transmissão com maior rapidez. Os que tomaram a vacina, no quinto dia já não tinham mais vírus. E aqueles que não tomaram vacina, se livraram do vírus somente no oitavo dia", contou.

As pesquisas, segundo ele, indicam também que os vacinados reduzem em 50% o risco de transmitir do vírus interdomiciliar.

"Isso comprova mais uma vez sua importância para evitar a transmissibilidade do vírus. Notícias falsas e ideia de imunidade natural só atrapalham. Portanto, a única forma de controlarmos definitivamente a transmissão e acabarmos com a pandemia é por meio da vacinação em massa", enfatiza.

Ele recorda que durante a batalha contra a doença houve sim momentos de politização em alguns aspectos técnicos do combate, que dividiu os profissionais sobre conduta médica, "mas isso foi mais fruto da desinformação sobre protocolos a serem seguidos e de desconhecimento do potencial destruidor do vírus do que de qualquer outra coisa. Problema que foi equacionado rapidamente, com o surgimento de novos estudos científicos".

História da doença

Bonilha lembra que assim que a pandemia começou na China e se estendeu por toda a Europa, os médicos tinham a certeza de que ela chegaria ao Brasil. Só não se sabiam exatamente quando isso ia acontecer e tudo se deu com uma velocidade incrível. "Recordo que no dia 23 de março uma chinesa esteve na Alemanha, onde se reuniu com executivos. Quando ela voltou ao seu país, descobriu que estava com a Covid-19. Essa informação acionou o sinal amarelo para todas as autoridades públicas de saúde do mundo, porque se tratava de um caso de pessoa assintomática, mas capaz de transmitir o vírus, porque os alemães que tiveram contato com ela foram contaminados".

Avanços da ciência

Por questão lógica, entendeu-se que o vírus era transmitido a partir de pessoas assintomáticas e certamente se tratava de uma transmissão pelas vias respiratórias. "Foi a partir desse momento que nos certificamos da importância do uso da máscara para a contenção do processo de propagação da doença. Nos hospitais em que trabalho (Santa Casa e Unimed), entendíamos já naquele momento a importância do uso de máscara como sendo a barreira física mais apropriada para o enfrentamento do que se tornou uma pandemia".

Sendo assim, no início de 2020, depois do primeiro caso diagnosticado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e logo em seguida, aqui em Piracicaba, o infectologista lembra que foram sendo conhecidas as formas de transmissão da doença. "Tratava-se de fato de uma doença nova e agressiva. Como infectologista, eu tinha medo de algumas doenças, como a meningococcemia, que mata o paciente em horas, mas passei a temer muito mais essa doença nova, pela ação rápida e brutal do seu vírus transmissor, capaz de desencadear a Covid-19 e problemas generalizados no organismo, levando-o ao óbito. Os profissionais que estivessem expostos ao contágio correriam o sério risco de adquirir a doença, com agravantes imprevisíveis. Por isso o grande estresse e até a preocupação, naquele momento, de que muitos deles poderiam se recusar a atuar na linha de frente".

Mas, segundo ele, o valor do profissional de saúde de Piracicaba se mostrou em sua verdadeira dimensão naquele momento limite. “Participei da articulação dos 26 municípios da nossa diretoria para estabelecermos uma estratégia unificada de combate à pandemia. Os hospitais públicos e privados se reuniram com as autoridades, o que envolveu o Hospital Regional, a Santa Casa, o Hospital Fornecedores de Cana e Unimed. Todos solidários e cientes da gravidade da situação, conseguimos uma articulação exemplar para assistir à população conveniada e SUS com qualidade, oferecendo um plano de suporte em todos os níveis, do primeiro atendimento, à enfermaria e, fundamentalmente, nas unidades de terapia intensiva (UTI)".

Um problema. "Nosso maior receio era não haver leitos suficientes em Piracicaba e, com a exaustão do sistema, caso muitas pessoas chegassem em situação grave ao mesmo tempo, necessitando de atendimento intensivo, entrássemos em colapso. Mas isso não ocorreu nem na primeira onda de Covid-19, em 2020, nem na segunda, neste ano. Chegamos a ter em meados de 2021, em um só dia, mais de 100 pacientes em situação grave internados na rede de saúde da cidade. Tivemos, por isso, que criar uma logística nova para que não houvesse descontrole e conseguimos".

A luz da ciência

Este ano, com a vacinação, o cenário começou a mudar radicalmente, "porque passamos a ter mais segurança no combate à doença. Num primeiro momento, com a imunização dos idosos e os profissionais da saúde o índice da doença nesses segmentos desacelerou radicalmente, o que demonstrou a eficácia da vacina. Hoje, temos um número reduzidíssimo de pacientes internados nos hospitais da cidade, o que indica também um cenário sob controle. Nem por isso devemos nos descuidar".

As visões negacionistas sobre a eficácia da vacina não emplacaram em Piracicaba, ficando restrito a uma minoria. Na explicação do infectologista, isso se deu "porque tivemos uma pandemia de H1N1 em Piracicaba, em 2009 e 2010, o que exigiu a ação rápida do Instituto Butantan no desenvolvimento de uma vacina, que foi produzida em parceria com a chinesa Sinovac Biotech, a mesma que produziu agora a Coronavac. A vacina contra o vírus H1N1 foi desenvolvido em menos de um ano e não recebeu nenhuma crítica e nem ficou exposta a politização como foi o caso da vacina contra o novo coronavírus. Mas é fato que a tecnologia do vírus morto já estava desenvolvida, facilitando muito os ajustes para o enfrentamento da Covid-19, que exigia uma resposta imediata. Por isso também que o Butantan deu preferência a essa vacina, que pode ser desenvolvida a toque de caixa, em menos de um ano".

Vacinas de maior eficácia foram surgindo depois. É o caso da Pfizer, com RNA mensageiro, Astrazeneca e Jansen, com vetor viral. "A da Pfizer é tão boa que pode ser aprovada para uso em adolescentes e agora está sendo estudada para uso em crianças de 5 a 11 anos de idade, com um terço da dose", observa. “Essa evolução não para, o que é muito importante, porque somente com a vacinação teremos o controle total da pandemia”, conclui.