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Chegando ao limite
Psicólogos, CVV e Rede de Atenção Psicossocial falam sobre o drama do suicídio no mês da prevenção

Por José Ricardo Ferreira

Para Sérgio, a luta é contra todo ato que promova o medo e a angústia

Crédito: Divulgação

Para Sérgio, a luta é contra todo ato que promova o medo e a angústia

Estamos no mês marcado pela conscientização e prevenção do suicídio. Para se ter uma ideia no Brasil cerca de 11 mil pessoas tiram a vida por ano, a maioria homens, segundo dados do Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio.

O psicólogo Sérgio Santos é doutor em Educação e especialista em prevenção e "posvenção" de suicídio. Posvenção, basicamente, é todo cuidado prestado aos sobreviventes enlutados por um suicídio.

Indagado se há novos tratamentos para ajudar uma pessoa a não chegar a esse extremo, ele explica: "Nada ou muito pouco. Mesmo com o avanço de pesquisas e tratamentos com "substâncias psicodélicas" (DMT, LSD e Psilocibina) e fármacos tradicionais, pouco se tem avançado no tratamento e na prevenção do suicídio, por ser este um ato multideterminado ou sem a possibilidade de previsão ou diagnóstico preciso das causas que o deflagraram (cerca de 3%). Particularmente, tenho voltado minha construção teórica e atuação clínica a partir do amor ou dos atos de escutar, acolher e "transfor(a)mar". É válido destacar que um dos possíveis motivos das taxas de suicídio não ter aumentado na pandemia foi o fato, comprovado por diversas pesquisas sob o termo "pulling together effect", de que quando o sofrimento é coletivo existe a tendência do fortalecimento dos laços sociais no mútuo apoio, na solidariedade, na compaixão e na coragem para atuar junto da compreensão de que as necessidades alheias podem ser, no fundo dos corações e dos intentos sociais, semelhantes. Por isso, um (novo) modo de prevenir o suicídio é a luta contra todo ato ou discurso que promovam o medo, o ódio, ansiedades e angústias "pós" pandemia", afirma o especialista.

Sérgio aponta que a pandemia da Covid-19 não significou aumento de casos de suicídio. "Mundialmente a incidência dos casos mantiveram-se nos patamares de anos anteriores. No entanto, estima-se que apenas uma em cada três tentativas de suicídio chega aos serviços de saúde. No Brasil, 51% dos suicídios ocorrem em casa e para cada um desses existem 20 tentativas associadas. Nesse sentido, temos quase 700 tentativas diariamente em nosso país. Afinal, enquanto neste século as taxas mundiais de suicídio diminuíram cerca de 38%, nas Américas elas subiram 17%, segundo o relatório 2021 da OMS", explicou.

Em relação a Piracicaba, o psicólogo não tem números locais. "Entretanto, minha experiência clínica e a partilha com profissionais da rede pública e particular de saúde mental do município apresentam um severo impacto no sofrimento psíquico da população devido às instabilidades informacionais - sobre o vírus e seu impacto no organismo, sobre a eficácia das vacinas e o prazo para ser vacinado -, questões financeiras, de rotina etc. Forçando adaptações rápidas e incertas, o que possivelmente contribuiu para um aumento nos estados de estresse agudo, donde decorrem as ideações e planejamentos suicidas e as autolesões", explicou.

Procurar um perfil de quem pode chegar ao extremo também não é tarefa fácil. "Não há perfil. O suicídio é um ato multideterminado, motivado por dores e pressões pessoais e sociais, que podem aparecer junto de um momento de impulsividade com reduzida atuação cognitiva ou em decorrência do agravo de autolesões: violência autoinfligida sem intenção suicida. Comumente, o comportamento suicídio pode estar atrelado a alguns transtornos mentais, sendo os mais recorrentes a depressão, o transtorno de humor bipolar, a esquizofrenia e o abuso de álcool e outras drogas. Há que se destacar que uma tentativa de suicídio mais que dobra a possibilidade de um ato derradeiro ocorrer. Por isso se faz necessário o acompanhamento da família e do tentante", orienta o especialista.

Tormento

Especialista em saúde mental, a psicóloga Maria Carolina Vitti Stenico, explica que casos de suicídios não são mais exceções na sociedade. "As pessoas que cometem o suicídio estão num grau de sofrimento mental tão intenso que não conseguem pensar em outra possibilidade de sair deste tormento", afirma ela.

O uso excessivo das redes sociais também evidencia na contemporaneidade um sinal de alerta sendo que as pessoas se comparam ao se deparar com imagens de felicidade sem fim. "A pessoa que já está com a saúde mental debilitada acaba piorando seu quadro por acreditar que existam pessoas que não têm problema na vida. Sabemos que isso não passa de uma ilusão, já que todos nós temos problemas e enfrenta-los sem adoecer seria o esperado", explica Carolina. "Outro sinal de nossos tempos é o uso abusivo de remédios farmacológicos sem prescrição médica, causando um colapso indigesto no organismo progredindo para a intensificação no quadro clínico do indivíduo".

Sofrimento

Vandrea Novello é coordenadora da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) da Secretaria Municipal de Saúde. Ela conta que a pandemia trouxe muita instabilidade emocional às pessoas. "Muito sofrimento à população no geral e cada um elabora de forma singular esse sofrimento", afirmou.

Vandrea ressalta alguns sinais de alerta: "Entre os sinais que devem ser monitorados estão a mudança brusca de comportamento da pessoa, como isolamento, agressividade, choro ou riso desmotivado. Essa mudança demonstra que algo está acontecendo, que essa pessoa precisa de ajuda, de escuta. Mas é preciso lembrar, também, que há o risco da impulsividade".

As tentativas de suicídio podem acontecer em qualquer faixa etária, mas as equipes de Saúde Mental estão percebendo um aumento significativo em jovens e adolescentes, segundo a coordenadora da RAPS. "A falta de perspectiva futura tem um custo muito alto e levam algumas pessoas a desistirem da vida".

Os profissionais de saúde, em geral, têm a obrigação de escutar de forma qualificada o paciente e seus familiares que buscam orientação, segundo ela. "Piracicaba conta, especificamente, com uma Rede de Atenção Psicossocial (Rede de Saúde Mental) e todos que precisam de ajuda, seja o paciente ou seu familiar, devem buscá-la no equipamento de referência apresentando seu cartão SUS ou cartão do Posto de Saúde ao qual pertence, e comprovante de residência. Esse paciente será atendido, acolhido no mesmo dia".

Em relação ao serviço público Piracicaba, reúne seis equipamentos que atuam de portas abertas à população, além de convênios médicos que fazem acolhimento de pessoas com sofrimento e/ou transtornos psíquico.

Os equipamentos são os seguintes: CAPS Bela Vista (telefone: 3433-0312) atende a população da região leste, sul e centro; Ambulatório de Saúde Mental Vila Cristina (Fone: 3402-3028) atende a região oeste; Ambulatório de Saúde Mental Vila Sônia (Fone: 3415-3343) atende a região norte; o CAPS Infantil (Fone: 3434-4732) atende crianças e adolescentes do município; o CAPS AD (Álcool e outras drogas) atende as pessoas com transtornos psíquico decorrentes do uso problemático de substâncias psicoativas (3411-6520).

Esses equipamentos também atuam juntos com as equipes da Atenção Básica na perspectiva de ampliar o olhar para essa demanda, segundo Vandrea. Há ainda o Consultório na Rua (3422-7354) direcionado para as pessoas em situação de rua, na tentativa de acolher também suas demandas psíquicas. Todo esse quadro faz parte da Rede de Atenção Psicossocial do SUS (Sistema Único de Saúde) de Piracicaba.

O CVV

O CVV (Centro de Valorização da Vida) vem se mostrando um grande parceiro na prevenção ao suicídio, funcionando 24 horas por dia por meio do telefone 188 e de chat pelo site www.cvv.org.br.

O Setembro Amarelo, como é chamado o mês de prevenção ao suicídio, tem como tema esse ano a frase "Criando esperança por meio da ação".

As pessoas que sentirem necessidade de falar com o CVV podem manter o anonimato e a conversa é sigilosa.

O CVV oferece apoio emocional e consequentemente previne o suicídio através da escuta com empatia sem julgamento ou crítica, mas principalmente com acolhimento, respeito, atenção e amor pelo próximo, descreve a porta-voz do centro na cidade, Eliane Soares.

Ela disse que, desde o início do ano passado, o principal assunto abordado nas conversas é como a pandemia afetou a pessoa nos mais diversos aspectos como solidão, mortes para a Covid-19 e que muitas vezes não houve velório, medo de ficar doente, perda emprego, sequelas que a pessoa tem por causa da Covid e por isso não consegue trabalhar e voltar à rotina. "Enfim todos nós fomos impactados de alguma forma".

O CVV nacional atende em média 3 milhões de ligações anuais. "São cerca de 4 mil voluntários que se revezam nas 24 horas todos os dias", disse Eliane. "É importante frisar que toda pessoa que está sentindo necessidade de conversar, desabafar, falar sobre assuntos que a estão deixando angustiada, aflita e triste pode ligar para o CVV qualquer hora de dia ou è noite", enfatizou.

Angústia

A pandemia criou angústia e situações como essas podem levar as pessoas ao limite, segundo a psicóloga Lucelena Nogueira. "A falta de perspectiva de futuro e o desemprego podem ser traços de sofrimentos que quando não acolhidos e compreendidos podem levar uma pessoa a ideação suicida planejada ou por impulso", explica ela que também é psicoterapeuta (@lucelenanogueiraparaagradarasideias).

As famílias devem ficar atentas. "Muitas pessoas evitam expor seus sentimentos ou não encontram no âmbito familiar espaço para colocar suas angústias, o que pode levar a se autoexigir ao extremo e também aumentar a sensação de fracasso e impotência individual", aponta Lucelena.

Entre brancos e negros, a ideia suicida é 45% maior entre os negros do sexo masculino dos 10 aos 29 anos, de acordo com o Ministério da Saúde. "E que 62,5% população LGBTQIA+ já teve ideação suicida em algum momento de sua trajetória na juventude", disse.