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Tradição
O famoso Circo do Veneno
Trajetória será contada em livro escrito por Diógenes Donisete Moreira, o palhaço Rico Veneno

Por Larissa Souza/Camara

 Nos dias 8 e 9, o livro será apresentado para a população, com distribuição gratuita

Crédito: Mateus Medeiros

Nos dias 8 e 9, o livro será apresentado para a população, com distribuição gratuita

A trajetória do Circo do Veneno, que durante anos divertiu o público nos bairros, e que, há 30 anos, ganhou o palco do Teatro Dr. Losso Netto, será contada em livro escrito por Diógenes Donisete Moreira, o palhaço Rico Veneno. A obra será lançada no teatro, no dia 7 de outubro, em uma solenidade fechada para autoridades. Nos dias 8 e 9, o livro será apresentado para a população, e serão distribuídos exemplares de forma gratuita. Os eventos são parte das atividades paralelas do 48º Salão Internacional de Humor de Piracicaba.

O livro foi desenvolvido por meio de parceria entre a Semac (Secretaria de Ação Cultural) e o IHGP (Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba). A tiragem única, de 500 livros, será custeada pelo IHGP (Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba).

A obra contará a história do circo, com o relato de membros da família, artigos de jornalistas, depoimentos de radialistas e de famosos que passaram pelo circo.

Essa história está diretamente ligada a Osvaldo Moreira (palhaço Veneno) e Dalila, que se conheceram em meados da década de 40 e fundaram o Circo do Veneno, no até então distrito de Saltinho. Da união dos dois, nasceram seus seis filhos que, depois, tornaram-se integrantes da trupe.

Com a tradicional lona e uma placa na entrada com a palavra "Veneno", o circo viajou pelas cidades da região de Piracicaba durante cerca de 50 anos apresentando espetáculos únicos de humor. Na cidade, a trupe visitou bairros da área urbana e rural, levando peças como "Linguiça atrás da porta", "Seu Pinto morreu" e "A morte de Lampião". O circo não possuía malabaristas, animais, nem outra atração. O show de humor desenvolvido pela equipe, tendo o palhaço como ator principal, era suficiente para atrair a atenção do público. Na parte interna, também eram vendidos alguns doces e salgados.

Para garantir o ingresso do espetáculo que, na época, custava entre três e quatro cruzeiros, havia crianças que chegavam a vender o pirulito puxa-puxa, em formato de guarda-chuva, na porta do circo. "O circo tornou-se um patrimônio da cultura piracicabana", conta Rico Veneno.

Muitos cantores famosos também passaram pelos palcos do Circo Veneno, como Lourenço e Dorival, as Irmãs Galvão e Mococa e Paraíso.

Os piracicabanos recordam-se de muitos momentos da trupe, inclusive das estripulias do palhaço Veneno, que sempre adicionava um toque de improviso nas apresentações escritas por Dalila. Em uma matéria feita pelo jornalista Adolpho Queiroz para o jornal Aldeia, em 1974, Queiroz conta um desses episódios. De acordo com o jornalista, em uma entrevista que deu para a TV Cultura, o palhaço anunciou que o cantor Roberto Carlos participaria do espetáculo naquela noite. A plateia, lotada, aguardava ansiosa a chegada do rei, até que, algum tempo depois, Veneno apareceu caracterizado de Roberto Carlos, cantando uma música do cantor. No texto, o jornalista conta que a plateia foi ao delírio.

Essas brincadeiras e estripulias do palhaço Veneno fizeram parte da vida de Rico, que ocupa os palcos, vestido de palhaço, desde os quatro anos. "Ninguém se transforma em palhaço; para mim, ser palhaço é um dom. Se você não tiver o dom de fazer as pessoas rirem, não adianta", disse.

Rico lembra que essa trajetória passou por diversas fases. Em 1983, a trupe enfrentou o momento mais difícil de sua história, o falecimento de Dalila em decorrência de um câncer no pâncreas. "Foi muito triste subir no palco e fazer as cenas sem ela, essa figura tão querida que era o alicerce, o braço direito do meu avô", comentou.

Retomar as apresentações depois desse momento tão triste foi difícil, mas, mesmo sem acompanhá-los em vida, Dalila continuou a ser a força que move a trupe. "Antes de morrer, ela chamou toda a família e disse assim 'eu não vou mais fazer parte, mas não deixem o circo morrer, é a nossa vida', e isso foi um combustível para todo mundo", contou Rico.

Dois anos depois, Rico, com 17 anos, assumiu a função de palhaço principal, parte do grupo passou a viajar fazendo apresentações pela região, e a outra permaneceu em Piracicaba. Em 1990, a família parou de se apresentar no circo.

Como um meio de manter viva a história do Circo Veneno, no mesmo ano, a trupe começou a promover espetáculos no Teatro Dr. Losso Netto, com entrada gratuita. Além de preservar a tradição da família, os espetáculos auxiliam entidades beneficentes da cidade, visto que, para entrar, é necessário fazer a doação de dois quilos de alimentos. Para Rico, a entrada do circo no teatro popularizou o espaço, dando para pessoas que nunca visitaram um teatro a oportunidade de conhecê-lo de forma gratuita. "Foi um ganho muito grande porque levou para o teatro essas pessoas que não tinham condições", comentou.

Em 2001, Osvaldo Moreira faleceu, com 80 anos. Hoje, a família continua se apresentando no Teatro Dr. Losso Netto, com uma equipe de 13 pessoas.

Lançamento

Nos dias 7, 8 e 9 também será reproduzido o famoso espetáculo "Seu Pinto Morreu", uma peça de humor que conta a história da morte de um empresário fictício, o Roberto Pinto. Os ingressos começarão a ser vendidos uma semana antes do espetáculo, no teatro e em outro ponto da cidade. A entrada custará dois quilos de alimentos. Devido às medidas de higiene criadas para o combate da Covid-19, serão distribuídos 330 ingressos para cada dia.

Para Rico Veneno, mesmo depois de 30 anos de história no teatro, o frio na barriga é o mesmo de quando pisou nos palcos pela primeira vez. "Parece que todo ano é uma estreia, da expectativa, da emoção de estar no palco, estar fazendo o que a gente gosta", contou.

O secretário de Cultura, Adolpho Queiroz, destaca que, além do livro Circo do Veneno, a pasta já planeja o lançamento de outra obra sobre a dupla Craveiro e Cravinho. "Está no forno", disse Queiroz.