Últimas Notícias
Violência
O Caso Joseane
Joseane perdeu a visão do olho direito, estraçalhado por disparos de balas de borracha no último dia 10 de julho, na comunidade Portelinha

Por José Ricardo Ferreira

Apuração é se e a bala que a cegou foi disparada por algum guarda civil municipal ou algum agente da Polícia Militar

Crédito: Davi Negri

Apuração é se e a bala que a cegou foi disparada por algum guarda civil municipal ou algum agente da Polícia Militar

Em 2002 a maranhense Joseane da Silva Sousa, 42, desceu cheia de sonhos na rodoviária de Piracicaba após três dias de viagem pelas estradas deste país. Sua cidade, Sucupira do Riachão, com cerca de 5 mil habitantes, a três horas da capital Teresina, oferecia poucas expectativas de crescimento pessoal e econômico para seus moradores. Sair de lá e tentar a vida em uma cidade grande do interior de São Paulo era tentador já que um de seus irmãos estava prosperando por aqui.

O que ela não esperava é que 19 anos depois seria vítima da violência urbana tão em evidência nas cidades, principalmente nas periferias. No último dia 10 de julho, um sábado, na comunidade Portelinha, no bairro Tatuapé, Joseane perderia a visão do olho direito, estraçalhado por disparos de balas de borracha (munições de elastômero).

A apuração é se e a bala que a cegou foi disparada por algum guarda civil municipal ou algum agente da Polícia Militar naquela fatídica noite de sábado.

Quando criança, Joseane gostava mesmo era do que a infância precisa: brincar. “Jogava bola, procurava frutas nos sítios, brincava com minhas amiguinhas”, recorda-se a hoje serviço-gerais e líder comunitária. “Cidade pequena, não tinha muito o que fazer”, lembra-se.

O início da infância foi como queria, com brincadeiras e liberdade. Mas isso foi interrompido cedo. Aos 10 anos de idade ela já trabalhava em “casa de família” na capital Teresina. O próprio pai tratou de leva-la para desde cedo criar responsabilidade. Ela conta que ajudava a cozinhar, passar, faxinar e que sempre foi bem tratada.

Em Teresina ficou por cerca de cinco anos quando voltou para Sucupira do Riachão. “Não consegui terminar meus estudos, pois engravidei cedo. O pai da criança não ficou e precisei da ajuda dos meus pais para criar o meu primeiro filho”, contou Joseane que hoje tem três rebentos sendo dois homens, de 23 e 22 anos e uma adolescente de 16 anos.

O pai José Vitório e a esposa Belzarina, já falecida, tiveram 11 filhos sendo sete mulheres e quatro homens. Uma das irmãs de Joseane também faleceu. Dos dez irmãos restantes, nove deixaram o Maranhão e estão em Piracicaba.

Ela conta que o seu primeiro filho não se acostumou com Piracicaba e precisou leva-lo novamente para Riachão. Em seguida ela retornou para Piracicaba pois deslumbrava viver uma vida próspera por aqui.

Com pouco estudo restou a Joseane os serviços braçais como os de faxina. Mas as coisas estavam dando certo. Parte da família lá no Maranhão queria que ela voltasse, mas tudo indicava que não tinha mais retorno. “Piracicaba tem mais recursos”, justificava ela.

Fez amigos, se enamorou e também achou tempo para ser voluntária em serviços sociais na comunidade da Portelinha, no caso, na Casa do Hip Hop, na Pauliceia. Ela, que hoje é uma líder comunitária, realiza trabalhos sociais desde 2015, por exemplo, na busca e distribuição de cestas básicas para famílias de baixa renda. Inclusive, naquele 10 de julho, durante o dia, trabalhou na separação de mais de seis dezenas de cestas.

Joseane diz que não frequenta muito as missas, mas afirma que tem “muita fé em Deus”. Diversão? Sim, nos finais de semana procurava estar sempre próxima aos amigos para eventuais churrascos e muita conversa. “Mas sem bebida alcoólica”, disse.

Aquela noite

Joseane acordou bem cedo naquele 10 de julho. Foi rápido para a Casa do Hip Hop separar as cestas básicas. O namorado a ajudou e tudo deu certo. Foi para casa, na Portelinha, e ali ficaria descansando. Por volta das 20h foi para a casa de uma amiga. “Fui lá umas oito e meia da noite. Estava muito frio. Estavam todos sentados na garagem ouvindo o jogo da seleção brasileira no rádio. Disseram que a gente torceria como antigamente, ouvindo o jogo pelo rádio”, se recordou. “Demos muitas risadas, estavam muito animados”, disse.

A casa da amiga fica a menos de um quarteirão de onde Joseane mora com o casal de filhos. O namorado não estava com ela na noite quando perdeu um dos olhos. Por volta das 22h Joseane conta que sentiu uma vontade de voltar para casa, “uma angústia”. Porém, os amigos insistiram que ficasse um pouco mais.

“Fui para o portão e voltei para a garagem. Passou um tempo e decidi ir embora. Fui até o portão e sai. Naquele momento fui atingida. Não vi de onde. Não sei. Só senti o impacto da bala e ouvi umas pessoas pedindo socorro”, se recorda.

A partir daquele momento a vida de Joseane nunca mais seria a mesma. Perderia para sempre a visão do olho direito. Ela conta que “sentiu um líquido nas mãos” e havia muito sangue. Também levou um tiro de borracha na testa.

Um rapaz foi ao seu socorro. Teria ocorrido uma discussão entre o homem e os agentes de segurança pública, segundo relatou a vítima à Gazeta. O sangue dos olhos de Joseane era abundante. “Um dos policiais pediu para o rapaz me deixar porque chamaria o Samu. O rapaz se negou. Dois policiais me jogaram na viatura e me levaram ao Pronto Socorro. Lá (a enfermagem) fizeram um curativo. Disseram que meu olho havia estourado”, contou.

Horas depois ela passaria por uma cirurgia no Hospital dos Fornecedores de Cana. “Eu já sabia que havia perdido um dos olhos e entreguei o meu destino nas mãos de Deus”, disse, emocionada.

Ela conta que sua família a quer de volta à Sucupira do Riachão. Que vida assim, sob riscos, não vale a pena. Mas Joseane insiste que sua história deve continuar em Piracicaba. “Vendi minha casinha lá. Minha vida é aqui agora. Tenho um namorado que me apoia, não me abandona por um segundo. Tenho amigos”, disse ela que mora numa casa própria de três cômodos.

Remédios

Joseane toma quatro remédios diariamente a cada seis horas por conta dos ferimentos. A dor no olho atingido é lancilante. A cada quatro horas o ferimento precisa ser higienizado. Ela aguarda a visita de assistentes sociais da prefeitura, enfim, algum apoio. Voluntários da Casa do Hip Hop juntaram recursos e compraram os remédios, segundo ela.

Joseane ainda conta que na noite daquele sábado tudo estava muito escuro e frio. “Não tinha festa, não vi aglomerações”, contou. Indagada se acredita na Justiça, ela respondeu sem titubear: “Que haja justiça. O que fizeram comigo não se faz com ninguém. Nesse país tem muito racismo, coisas desumanas. O pobre tem poucas chances”.

Ela espera que as polícias “tenham mais atenção em suas atividades” e que respeitem as pessoas “dentro ou fora de uma comunidade”, afirmou. “Todos nós somos iguais. Espero sim indenização. Acordo todos os dias 5h30 para trabalhar. Minha vida agora está limitada sem um dos meus olhos

“Não pode cair no esquecimento”

A advogada Lia Mara de Oliveira está representando Joseane da Silva Sousa. Desde 12 de julho a acompanha no caso em que sua cliente ficou cega de um dos olhos. A advogada contou que teve o apoio da psicóloga Juliane Martins de Oliveira que atendeu a vítima e continua prestando o serviços.

Lia Mara lembra que o suporte psicológico foi importante para a elaboração o boletim de ocorrência. A vítima também passou pelo Instituto Médico Legal (IML). Uma clínica especializada em olhos está acompanhando Joseane nos primeiros tratamentos, segundo a advogada.

Lia Mara disse que o globo ocular foi retirado para evitar infecções. A advogada contou que Joseane demorou horas para obter uma vaga para a cirurgia. A ambulância demorou muito, segundo ela, paralevá-la ao hospital.

A advogada disse que Joseane foi atingida por duas balas de borracha e que passou por atendimentos na Unidade de Pronto Atendimento da Vila Cristina, Santa Casa e por fim no Hospital dos Fornecedores de Cana (HFC) onde passou pela cirurgia.

“Estamos na fase do inquérito policial, juntando os prontuários para que haja investigação pela autoridade competente”, explicou a advogada.

Ela disse que a Ouvidoria da Polícia Militar do Estado de São Paulo abriu um procedimento para averiguar os acontecimentos. “Também estamos aguardando essa apuração”.

Na quinta-feira, disse ela, houve uma reunião na Câmara com o apoio dos vereadores Acácio Godoy (PP), vice-presidente do Legislativo, Ana Pavão (PL) que é integrante da Procuradoria da Mulher na Câmara, Paulo Camolesi (PDT), presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania, e Thiago Ribeiro (PSC). O objetivo é por uma mobilização para apurar o caso de violência que cegou a líder comunitária.

No entendimento da advogado, é urgente a investigação do ocorrido. “Foi uma ação conjunta da Polícia Militar e da Guarda Civil. A responsabilidade é das duas entidades. Nesse excesso, as duas entidades estavam presentes”, afirmou. “Esse caso da Joseane não pode cair no esquecimento como outros tantos. Vamos entrar com processo de reparação indenizatória, porém, a visão dela jamais será recuperada. Isso foi causado por uma agressão contra a mulher preta, líder comunitária, de uma população periférica. Ela tem carteira registrada há oito anos no Case de Piracicaba, que é o Centro de Atendimento Socioeducativo”, explicou. 

Versões da GC e da PM

Em nota encaminha à Gazeta, a Guarda Civil diz que “atendeu a solicitação da Vigilância Sanitária sobre aglomeração na comunidade. Viaturas da GC e PM foram acionadas para auxiliar na fiscalização. Segundo registrado em Boletim de Ocorrência, os guardas foram recebidos com pedras e garrafas e tiveram de usar o elastômero (bala de borracha). Já na saída da comunidade, os guardas foram solicitados por uma moradora que apresentava ferimento e foi socorrida. O comando da GC informa que irá encaminhar B.O à Corregedoria para apuração das circunstâncias”.

O 10º Batalhão da PM informou na última quarta-feira (14) que desde de julho de 2020 a PM não utiliza balas de borracha devido à falta das mesmas nos estoques. Na operação na Portelinha nenhum PM estava com esse tipo de munição, segundo a corporação.