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Disparada de preços dos combustíveis
Altas refletem a recuperação das cotações internacionais do petróleo, explicam especialistas

Por José Ricardo Ferreira

Em Piracicaba já houve picos de R$ 6,003 o litro da gasolina

Crédito: Mateus Medeiros/Gazeta de Piracicaba

Em Piracicaba já houve picos de R$ 6,003 o litro da gasolina

O valor dos combustíveis nunca esteve tão alto no Brasil. Os preços da gasolina, do diesel e do botijão de gás tiram o sono do consumidor frequentemente e pesam em seu bolso.

A Petrobras aumenta os preços em suas refinarias e isso reflete nas bombas nos postos de combustível.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), enquanto o IPCA acumula alta de 8,99% em 12 meses até julho, os preços da gasolina e do etanol saltaram, respectivamente, 39,65% e 57,27%, no mesmo período.

Especialistas no assunto explicam o motivo de tantos aumentos: as altas refletem a recuperação das cotações internacionais do petróleo, isto é, estão recuperando perdas do início da pandemia. E com o dólar forte, o preço final é ainda mais alto.

No último dia 28 de agosto, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) atribuiu o preço alto da gasolina e de outros combustíveis ao imposto estadual, o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Ele chegou a afirmar que o valor tem subido por uma "ganância" de governadores.

Há regiões do país que o litro do combustível já passou de R$ 7. Dados oficiais, porém, mostram que o fator que mais pesou para o aumento do preço nos últimos meses não foi o ICMS, mas sim os aumentos feitos pela Petrobras. O imposto estadual compõe uma parte importante do valor que os consumidores pagam nos postos, mas os percentuais cobrados não sofreram alterações recentemente.

A ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) divulga planilhas mensais que mostram qual foi a participação dos itens (impostos, tributos) no preço médio do litro de combustível ao motorista.

Os dados são extraídos do Relatório do Mercado de Derivados do Petróleo, produzido pelo Ministério de Minas e Energia, do Governo Federal. As informações mais recentes são de abril de 2021. Segundo os dados, 28,1% (ou R$ 1,53) do preço da gasolina na bomba correspondia ao valor do ICMS. O componente que mais pesou, porém, não foi o imposto, e sim o valor cobrado na refinaria: o item respondeu por 35,6% (R$ 1,95) do valor médio pago pelos motoristas em abril (R$ 5,47).

Em Piracicaba já houve picos de R$ 6,003 o litro da gasolina (menor preço R$ 5,669) encontrando uma média de R$ 5,798 nos últimos 15 dias, segundo site precosdoscombustiveis.com.br.

Câmbio

Augusto Mafia, diretor do Recap na região de Piracicaba, explica que estamos vivendo um momento em que o câmbio tem influenciado muito nos preços dos combustíveis. O valor do barril de petróleo internacional, reforça ele, faz com que tenhamos um combustível mais caro no Brasil.

“Nos governos anteriores tínhamos uma política de preços diferente do que nós temos hoje. Atualmente é uma política livre que segue os preços internacionais com a influência do barril de petróleo e a influência do dólar. Tínhamos preços subsidiados pela Petrobras”, explica ele. Com o subsídio da estatal o preço nas bombas se mantinha estável.

“Após a mudança dessa política, os preços passaram a seguir o mercado internacional. Por isso, os aumentos nos últimos anos”, explica ele.

O Recap é o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Campinas. Abrange 90 cidades do interior representando 1.497 postos de combustível sendo que 48% são de bandeira branca (718). Em Piracicaba 87 postos são filiados ao sindicato.

Mafia diz ainda que na composição dos custos dos combustíveis os impostos têm uma participação muito importante. “É real que uma boa parte dos combustíveis tenha uma carga tributária elevada e isso aumenta os preços. Cortar ou reduzir os impostos realmente poderia diminuir o preço na bomba para o consumidor final”, explica.

Ele disse que o segmento de postos reivindica uma reforma tributária para que o impacto nos preços seja menor para o consumidor.

Sobre as margens de lucro dos postos, o diretor do Recap explicou que isso varia muito entre os estabelecimentos. Ela está ligada à compra e venda e aos custos operacionais. “Temos visto uma queda na margem de lucro em relação aos anos anteriores”, sintetiza ele.

Aumentar o valor do combustível não significa mais ganhos aos postos, de acordo com Mafia. “Pelo contrário, observamos uma queda do tíquete médio dos combustíveis, isto é, o consumidor está abastecendo a mesma quantidade de reais para comprar uma quantidade menor de combustível por conta da alta dos preços”. Dessa forma, acrescenta, a margem de lucro dos postos caiu. O consumidor compra menos e o posto fatura menos. Consequentemente perde em ganho real.

O Recap não tem o número de postos que fecharam ou abriram nos últimos anos.

Os postos estão cada vez mais prestadores de serviços e vendedores de produtos, aponta o diretor do Recap. É uma forma de diversificar os ganhos e atrair a clientela. “Estão otimizando a área para conveniência e espaço para outras atividades para melhorar a rentabilidade do negócio”.

Adulteração

A adulteração de combustível sempre foi um problema muito sério do setor, segundo Mafia. “As entidades têm buscado monitorar a qualidade do produto nos postos”. Porém, afirmou ele, há ainda a presença de fraudes no mercado. “Existem alguns testes que o consumidor pode pedir no ato do abastecimento, principalmente na questão do etanol, isto é, sua quantidade na gasolina. Porém, testes mais específicos têm resultado a partir da análise em laboratório, que dificulta ter uma resposta imediata para o consumidor”.

O Recap tem o Programa de Monitoramento de Qualidade, o PMQ, que monitora os seus associados sobre a qualidade do combustível. “A dica é que o consumidor abasteça num posto que ele conheça para ficar mais tranquilo e confiante”, orienta Mafia.

Bandeiras brancas

Os postos de bandeira branca sofrem uma certa resistência por parte do consumidor, isso porque eles não têm uma marca específica. “Mas isso não quer dizer que ele venda produto adulterado. Não é correto fazer essa associação”, diz Mafia. Com ou sem marca um posto pode atuar de forma errada, segundo sustenta o diretor do Recap.

Um outro assunto que ganhou o debate sobre combustíveis nas últimas semanas foi a liberação para que o álcool seja vendido diretamente para os postos de combustíveis. O presidente Bolsonaro anunciou essa prática no último dia 11 de agosto por meio de uma medida provisória, que tem força de lei mas precisa ser aprovada pelo Congresso em 120 dias a partir da data da medida.

“Em relação à venda direta do etanol das usinas para os postos é um assunto que ainda estamos estudando. Ainda não sabemos os efeitos práticos sobre essa ação. Há um departamento jurídico para isso. Para entender a questão tributária e de logística. Entender o que isso trará de benefícios”, declarou Mafia.

O mundo debate e sente cada vez mais os efeitos dos combustíveis fósseis no meio ambiente. Existe uma onda global que chega lentamente no Brasil: a dos carros elétricos, que é a transição da combustão interna para a eletricidade.

Para o diretor do Recap, o carro elétrico é uma realidade, porém ainda com baixa participação no mercado. “Mas será uma evolução que vai substituir uma parte da frota que roda. Não temos notícias de postos que já atendam aos elétricos na região. Os carregadores elétricos estão em fase de evolução e com custo elevado”, explicou ele.

Por enquanto, então, o consumidor precisará ir fazendo as contas e tentando encaixar em seu orçamento os reajustes frequentes dos combustíveis.

Consumidor usa menos o veículo

Com as altas frequentes dos combustíveis, o consumidor procura usar menos o veículo. É o caso do consultor comercial e apresentador Luiz Tarantini, 52. Ele tem dois veículos à gasolina. Em um o gasto semanal é de R$ 150,00 e no outro, R$ 50,00. Rodam por mês cerca de 1.360km.

Tarantini diz que abastece somente em um posto pois confia no vendedor. “A forma de economizar é restringir ao máximo o uso do veículo que não é usado para o trabalho”, disse ele.

Dois anos atrás ele abastecia a cada 15 dias e não semanalmente. Com o mesmo valor dava para rodar mais. Tarantini entende que são muitos impostos sobre os combustíveis e isso os encarecem.

Geraldo Melloto, 55, usa o carro para trabalhar pois é vendedor de cervejas. Ele lamenta a situação pois como a maioria dos brasileiros sente no bolso os reajustes dos combustíveis. Lembra que não é apenas a gasolina que sobe de preço, mas também os alimentos, a energia elétrica etc.

Ele roda com seu veículo cerca de 140 km por semana. Para tentar economizar procura pesquisar preços menos onerosos para seu bolso. Ele também busca usar menos o veículo e fazer as coisas a pé. “Se não a gasolina ‘come’ mesmo”, afirmou.