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Anistia denuncia 'quase monopólio' dos países ricos sobre vacinas anticovid
Diante do controle dos países ricos sobre as vacinas contra a covid-19, às custas dos mais pobres, a Anistia Internacional denunciou nesta quarta-feira (7, terça no Brasil) a incapacidade do mundo de cooperar contra a pandemia, situação que clamou para que seja corrigida "imediatamente"

Por AFP

Crédito: Divulgação/Internet

Diante do controle dos países ricos sobre as vacinas contra a covid-19, às custas dos mais pobres, a Anistia Internacional denunciou nesta quarta-feira (7, terça no Brasil) a incapacidade do mundo de cooperar contra a pandemia, situação que clamou para que seja corrigida "imediatamente".

No relatório 2020/2021, a ONG faz um balanço duro do ano da pandemia: um "salve-se quem puder" generalizado que penaliza os mais vulneráveis e agrava as desigualdades, ao mesmo tempo em que aumenta a repressão em alguns países sob o pretexto da crise sanitária.

"A pandemia lançou luz sobre a incapacidade do mundo de cooperar de forma eficaz e equitativa", afirma na introdução Agnès Callamard, nomeada nova secretária-geral da ONG de defesa dos direitos humanos no final de março.

"Os países mais ricos estabeleceram um quase monopólio sobre o estoque de vacinas no mundo, deixando que os países com menos recursos enfrentem as piores consequências para a saúde e os direitos humanos e, portanto, os maiores transtornos econômicos e sociais", acrescentou.

Assim, a Anistia pede ação imediata "para acelerar a produção e o fornecimento de vacinas para todos". "Este é o teste mais básico, embora rudimentar, da capacidade de cooperação do mundo", declarou.

Mais de um ano após o surgimento do coronavírus na China no final de 2019, o mundo ainda está lutando contra a pandemia, que matou pelo menos 2,8 milhões de pessoas e oficialmente infectou cerca de 130 milhões.

Longe de suscitar uma onda de solidariedade, a epidemia aumentou as tensões, enquanto as disparidades na vacinação só crescem.

Segundo contagem da AFP, metade das 680 milhões de doses administradas em todo o mundo correspondem a países de "alta renda", conforme define o Banco Mundial (16% da população do planeta), como Estados Unidos, Reino Unido e Israel, enquanto os países de "baixa renda" (9% da humanidade) receberam apenas 0,1% das doses.

A pandemia da covid-19, a pior que o planeta já enfrentou em mais de um século, afeta sobretudo os países ricos. Apenas os Estados Unidos e a Europa, com cerca de 75 milhões de infecções detectadas, representam mais da metade do total de casos em todo o mundo.

No entanto, a doença se espalhou rapidamente nos países pobres. A Anistia Internacional apoia iniciativas como a plataforma C-TAP, criada pela OMS para o compartilhamento de conhecimentos técnicos, propriedade intelectual e dados.

Subutilizada, a plataforma poderia ser aproveitada para encontrar novas capacidades de produção e ajudar a construir centros de fabricação adicionais, especialmente na América Latina, África e Ásia, de acordo com a agência da ONU.

Além da desigualdade das vacinas, a Anistia aponta como prova desse "salve-se quem puder": a "grave irresponsabilidade" da China, que tentou censurar profissionais da saúde e jornalistas que tentaram alertar o mundo no início da pandemia, a decisão do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retirar seu país da OMS em meio à crise - posteriormente revogada por seu sucessor Joe Biden - e "medidas insuficientes", como a suspensão parcial do serviço da dívida dos países mais pobres pelo G20.

"A pandemia da covid-19 colocou em evidência, ampliando as desigualdades, a discriminação e a repressão", resumiu Callamard em entrevista à AFP.

"Nossos governos não passaram no teste de 2020, nossas instituições internacionais não passaram no teste de 2020. O que vão fazer quando chegar uma pandemia maior? (...) O que vamos fazer quando a crise climática estiver na nossa frente?", questionou.

Marginalizando ainda mais aqueles que já eram marginalizados, como mulheres e migrantes, o coronavírus também gerou um aumento na repressão e nas violações dos direitos humanos, advertiu a Anistia.

A entidade ressalta o crescimento das restrições à liberdade de expressão em países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Hungria, que tentam silenciar as críticas à gestão da crise, classificando-as como "informações falsas".