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Iraque presenteia o papa com uma reprodução da via crucis que tem parte da história do país
O papa Francisco recebeu um pequeno presente do Iraque nesta sexta-feira (5): uma cópia de uma via crucis estilizada, obra de um escultor muçulmano, um dos mais conhecidos do país, incrustada nas paredes de uma igreja em Bagdá

Por AFP

Crédito: Divulgação/Internet

O papa Francisco recebeu um pequeno presente do Iraque nesta sexta-feira (5): uma cópia de uma via crucis estilizada, obra de um escultor muçulmano, um dos mais conhecidos do país, incrustada nas paredes de uma igreja em Bagdá.

No início desta visita histórica, o presidente iraquiano, Barham Saleh, entregou ao papa uma pequena placa de bronze como presente de boas-vindas, feita especialmente para o primeiro pontífice a visitar este país do Oriente Médio.

Yaser Hikmat, filho do escultor iraquiano Mohammed Ghani Hikmat - falecido em 2011 - supervisionou pessoalmente a partir de Beirute o processo desta reprodução, "Verônica limpa o rosto de Jesus", no maior dos mistérios.

"É muito simbólico para o Iraque, meu pai era um artista muçulmano que contou a paixão de Cristo na escultura, que representa o fato de que não há discriminação entre os diferentes componentes do Iraque", afirmou à AFP.

Esta obra é quatro vezes menor que a original que, como as 14 estações da via crucis em Hikmat, tem dois metros de altura por um metro de largura.

Mas por trás dessa obra esconde-se, de fato, a história recente do país que o papa viajará de sul a norte até a manhã da próxima segunda-feira.

Em 1993, numa época em que o Iraque sofria totalmente o embargo decretado por uma comunidade internacional determinada a encerrar os conflitos do ditador Saddam Hussein (1979-2003), apesar de tudo, uma igreja foi construída em Bagdá.

A igreja da Ascensão, expropriada por um estado socialista que tinha todas as terras e podia organizá-las como bem entendesse, foi reconstruída em terras cedidas pelas autoridades no bairro popular de Mechtel, dentro do grande cinturão agrícola de Bagdá.

Levaram-se vários anos para reunir as doações de 5.600 famílias de caldeus que moram nas proximidades.

E também a persuasão da Igreja para conseguir de Mohammed Ghani Hikmat - o artista por trás da maioria das estátuas monumentais de Bagdá - uma via crucis como "nenhuma outra em todas as igrejas de caldeus do mundo", afirmou o padre Fadi Nadheer, sacerdote da igreja da Ascensão à AFP.

Hikmat então se trancou em seu ateliê e entrou no que mais tarde descreveu como uma espécie de transe mítico. O resultado foi revelado alguns meses depois.

O artista, conhecido como "xeque dos escultores iraquianos", esculpiu as 14 estações da via crucis em blocos de pedra procedentes da planície de Nínive, um reduto cristão no norte para onde o papa irá no domingo.

No entanto, a cena não é apenas bíblica. Nos cantos de cada baixo-relevo, aparecem uma mulher e uma criança. Representam o povo iraquiano sufocado pelo embargo e pelas guerras, marginalizado como aqueles que Cristo afirmava que deviam ser defendidos segundo os Evangelhos.

Hoje, o embargo é uma memória distante, mas a igreja da Ascensão é apenas sua sombra. Sua arquitetura imponente, estilo babilônico em tijolos amarelos típicos do Iraque, e seu átrio são escondidos por uma parede de blocos pesados de concreto instalados em 2007, durante a guerra civil.

Das 5.600 famílias caldeias da década de 1990, apenas 400 ainda estão no local.

Apesar da provação diária em um país que passou da guerra à crise política ou econômica ao longo de 40 anos, "nossa igreja foi escolhida como um presente oficial do Iraque para o papa, é um belo reconhecimento", explica o padre Nadheer.