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CINCO ANOS DE ESTUDOS Plástico biodegradável

Publicado 06/10/2019 - 00h09 - Atualizado 07/10/2019 - 10h28

Por Adriana Ferezim

Segunda-feira, 7 de outubro de 2019
Desenvolver um produto resistente, transparente, economicamente viável e biodegradável, capaz de desaparecer, em uma semana, se for jogado na natureza. Esses foram desafios da pesquisa que resultou na elaboração de um plástico feito a partir do amido da mandioca, com uso de uma nova tecnologia que utiliza o ozônio, gás que gera como resíduo, após o uso, o oxigênio. Todo o estudo com base no Conceito 'Tecnologia Verde' foi realizado por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e da Escola Politécnica (Poli/USP).
"Unimos a nossa experiência de cinco anos de estudos de diferentes técnicas de modificar o amido - que pode ser da mandioca, arroz, milho e batata - e suas possíveis aplicações, no laboratório do Grupo de Estudos de em Engenharia de Processos (Ge2P) da Esalq, com a expertise de 15 anos de pesquisas realizadas no Laboratório de Engenharia de Alimentos (LEA), coordenado pela professora Carmen Cecília Tadini, da Poli, na produção de plásticos de diferentes fontes", explicou o professor-coordenador do Ge2P, Pedro Esteves Duarte Augusto.
Por quase dois anos, os pesquisadores trabalharam na produção do novo plástico, que ao final do processo se mostrou mais resistente que outros plásticos biodegradáveis, cerca de 30%, e transparente.
"O desafio de elaborar um produto diferente é importante porque nas embalagens o consumidor precisa ver o produto. Esse plástico biodegradável não serve para embalar alimentos úmidos, mas todos alimentos secos e produtos, como arroz, feijão, a película que vai em uma embalagem com papelão e sacolas, esse material pode ser utilizado. Também não conseguimos que ele possa ser aplicado em usos que exigem resistência, como para-choque de carro, teclado de computador e outros produtos feitos de plástico duro", afirmou.
O plástico está presente em praticamente todos os momentos do dia a dia. Está nas embalagens, nos veículos, equipamentos eletrônicos, utensílios domésticos. É difícil lembrar, em um dia inteiro, um momento sem ficar em contato com esse produto, que por ser descartado erroneamente também é responsável pela poluição ambiental.
O plástico geralmente é feito a partir do petróleo - pode demorar centenas de anos para se decompor na natureza. Por esse motivo, a busca por fontes alternativas tem ocorrido em todo o mundo e o amido se mostrou eficaz.
Nova tecnologia
Para o professor, o mérito desse estudo foi a sua inovação tecnológica ao usar o ozônio. "O amido foi modificado quimicamente por uma reação pela aplicação do ozônio. Essa interação produziu moléculas diferentes que resultaram em um plástico mais resistente e transparente. E o ozônio é um gás considerado amigável para o Meio Ambiente", comentou Augusto.
O Ge2P já desenvolveu, em suas pesquisas, trabalhos utilizando tecnologias como ultrassom e irradiação com amidos, mas com a modificação com ozônio, os resultados foram no sentido de que o produto obtido permite diversas aplicações. A descoberta não vai resolver o problema do planeta com relação à poluição do plástico, mas é um passo importante para reduzir os impactos.
"Já solicitamos o registro da patente e basta alguma empresa se interessar em produzir e levar o produto para o mercado. Nosso papel, enquanto pesquisadores é apresentar algo que é possível ser preparado e os estudos vão continuar, por pelo menos mais dois anos", relatou o professor.
De acordo com o coordenador, a maior parte da pesquisa foi liderada pela pesquisadora boliviana, engenheira química de Alimentos Carla Ivonne La Fuente Arias, que desenvolve o pós-doutorado no Ge2P, em parceria com o LEA e com Bolsa da Fapesp.
"O estudo para o Pós-Doutorado e a aproximação com o grupo coordenado pelo professor Pedro teve início quando ele fez parte da minha banca de qualificação no doutorado. Essa nova pesquisa trata-se de uma Tecnologia Verde, amigável com o Ambiente. Esse é o foco, modificá-lo com o ozônio de maneira a melhorar suas propriedades na forma nativa. Produzimos assim esse plástico biodegradável e, mesmo ainda na etapa inicial, já obtivemos um produto de boa qualidade", disse.
A pesquisadora informou que a próxima etapa da pesquisa será realizada na Poli e será sobre a viabilidade da produção em escala semi-industrial. Na Esalq são realizadas as etapas de ozonização, secagem e caracterização das amostras de amido. Na Poli, Carla prepara e caracteriza o plástico biodegradável.
Quantidade
De acordo com o professor Pedro, com um quilo de mandioca é possível produzir 300 gramas de plástico biodegradável. A mandioca foi o alimento escolhido porque produz grande quantidade de amido.
"Poderíamos usar o milho, que também tem grandes quantidades de amido, a batata e o arroz. Mas, selecionamos a mandioca porque é um produto típico do Brasil e queríamos demonstrar que é possível utilizar outras fontes, que não o milho ou a batata, por exemplo", comentou o professor.
O estudo ainda não avaliou as possíveis destinações dos resíduos da mandioca que sobram da produção do plástico biodegradável. "Sobram as fibras da mandioca no processo e elas podem ter usos para outras finalidades. As pesquisas são importantes por isso, porque sempre surge pergunta que precisa de estudos para ser respondida", observou.
Ao todo, seis integrantes do Ge2P da Esalq, que conta com cerca de 20 membros da graduação até o Pós-Doutorado participaram da pesquisa. O trabalho teve, ainda, a participação das pesquisadoras Andressa de Souza, Bianca Maniglia e Nanci Castanha e foi financiado pela Fapesp, com bolsas da fundação, da Capes e do CNPq. (Com informações de Caio Albuquerque/Esalq)
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Escrito por:

Adriana Ferezim