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Cidade
Gente - SEM CHEIRO DE NAFTALINA
Intrigas palacianas Filme retrata a infância e juventude da rainha Victoria, que assumiu o trono britânico aos 18 anos de idade
JOÃO NUNES Especial para a Agência Anhanguera
A Jovem Rainha Victoria (The Young Victoria, 2009, Reino Unido), de Jean-Marc Vallée, é um desses filmes de época que não cheiram a naftalina. Ao contrário, tem frescor especialmente por conta da direção criativa e envolvente, ainda que não tenha nenhuma ousadia formal - e nem precisa.
Para não dizer que não tem, há, sim, uma forma diferente de evitar os tradicionais e, muitas vezes, aborrecidos e batidos planos e contra planos (os cortes para o ator que está falando). Com várias pessoas no quadro, o diretor usa o recurso do foco para destacar determinado ator, ao mesmo tempo em que desfoca o restante da cena. A forma delicada como realiza o efeito dá charme à narrativa. Vê-se, portanto, que há uma preocupação que tem a ver com o conceito do filme.
Partindo desse aparente simples detalhe descobrimos que estamos diante de um filme sem grandes ambições, mas tratado com atenção e cuidado de forma a envolver o espectador. E esse cuidado está presente em todo o desenrolar da trama.
Isso significa dizer que temos bons atores, ótima direção de arte, cenários bonitos, roteiro bem desenhado - além da citada direção -, enfim, uma soma de qualidades que fazem de A Jovem Rainha Victoria ótimo programa.
A história contempla, como indica o título, a infância e juventude da rainha Victoria (1819-1901), amparada inicialmente por um tutor e à espera da morte do Rei William (Jim Broadbent). Com 18 anos, ela assume o trono, imagens mostradas logo no início. Em seguida, faz-se uma longa digressão pela infância e adolescência da personagem, interpretada por Emily Blunt, até o início do reinado propriamente dito.
O que se colocada em pauta não são apenas os rituais do cargo e seus conhecidos excessos, mas principalmente as intrigas palacianas. Do padrasto, ao tio, passando pelo novo mentor Lord Melbourne (Paul Bettany), todos querem tirar sua fatia de vantagem da inexperiente rainha.
No entanto, o filme não deixa brechas para grandes acontecimentos nem tampouco trabalha no extremo de privilegiar as tais intrigas. Interessa muito mais falar da rainha e seu namoro com o príncipe belga Albert (Rupert Friend), que, sinceramente, se encanta por ela. Há uma cena em que tudo se delineia. O casal joga xadrez, sob olhares atentos dos interessados no futuro deles. De repente, Albert lhe diz que há muita gente de olho nesse jogo sucessório, mas ela deverá fazer o próprio jogo.
A frase é simples, sem grande profundidade, mas dará o tom da vida da rainha. Ela ouvirá os que têm de ouvir, mas tomará as próprias decisões, enquanto os abutres se afastarão gradativamente, como a dizer: a sagacidade, a inteligência e o amor são mais importantes que a luta insana pelo poder.
FINAL SINGELO. É curioso notar que o filme não tem desfecho grandioso, como quando uma trama se desmonta, os bandidos são desmascarados e os mocinhos ganham a felicidade como prêmio. Nada disso, ao contrário, ele tem um final singelo - até porque a história se interrompe na juventude da rainha e muitos anos ainda viriam pela frente.
Ao contemplar esse recorte, o filme poderia cair facilmente no nada, até porque as tais intrigas palacianas são facilmente descartadas. No entanto, a bela direção de A Jovem Rainha Victoria nos faz ficar presos à narrativa sucinta e simples. Nessas horas pensamos: não é difícil fazer um filme bom. Não, mas é preciso ter talento.

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