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Cidade
UM SOPÃO SEM RIVAL
Da 'cucina povera' Minestrone ainda é a sopa que cai melhor num dia frio, quando a gente flerta com a preguiça
Lauro Lucchesi cheflauro@rac.com.br
Molhada e cinza, quase glacial, a tarde bateu na porta num destes dias de Inverno. Do jeitão que eu gosto quando estou desplugado da rotina. Então, tolhido de maiores aventuras, matutando sobre a insustentável leveza do ser, me abandono nos braços da preguiça. Nestes casos somos - eu e a preguiça - de uma cumplicidade de invejar qualquer frade de mosteiro. E, como é sabido, atrás de um dia friorento vem aquela vontade de saborear algo quentinho, ou melhor, fumegante. Algo confortante, acolhedor. Neste cenário, só me rendo mesmo às ordens do estômago. E tem que ser algo simples, prático, sem muito esforço e precisão métrica. E nada cai melhor nesta situação que uma sopa.
E a sopa que cai melhor quando a gente flerta com a preguiça e um dia de frio é um Minestrone, um prato clássico da "cucina povera" italiana. É que o Minestrone não tem receita rígida, original, específica, aquela coisa de sem isso não funciona ou se faltar aquilo deixa de ser. Faz se com o que se tem na mão; é versátil, uma ode ao improviso, quase um estado de espírito onde os produtos sazonais de cada época do ano dão o tom e o diferencial no aroma.
Aliás, Minestrone deve ser entendido como um conjunto de sopas. Existe sim uma linha mestra, um conceito fundamental. Mas não há duas iguais: cada mama ou chef tem sua maneira de executá-la, cada família tem a dela, muitas vezes herdada lá da nona.
PRESSUPOSTOS. Seus pressupostos são: 1) a base, seu início, parte de um caldo de legumes, frango ou carne e permite pedaços desta ou daquela carne; 2) ela deve ser espessa, grossa, nutritiva, incorporando feijões, um tipo de macarrão (Ave Maria ou Padre Nosso, preferencialmente) e legumes, picados de forma rústica. A partir daí, a palavra de ordem é improvisar. Prova disso é dar um passeio pelos sites de gastronomia e culinária que estão disponíveis na web: se encontrar duas receitas iguais tenha certeza, uma delas é plágio. As receitas postadas pelos chefs ou aqueles que levam a gastronomia um tanto mais a sério sempre apresentarão um diferencial na quantidade e tipos de ingredientes ou na prática de executá-las.
Além do início - já dissemos, a base de todas elas é um bom caldo - têm em comum outro ponto: como acompanhamento, não pode faltar um corado pão italiano e um vinho tinto encorpado e seguro de si.
Robustez acima do preconceito
Minestrone é, em geral, o nome dado a um "sopão" , mas não no sentido depreciativo. "Sopão" no sentido de reforçado, robusto. Surgiu nos lares mais humildes da Itália; era barata e preparada para nutrir os camponeses que passavam longos períodos do dia trabalhando a terra. Era consumida como o prato principal de uma refeição. Uma de suas características é que, além dos produtos comprados para sua elaboração, nela é possível aproveitar sobras do que teve como destino outros pratos, "fare la scopa negli contorni" - fazer uma varredura nos entornos, nas sobras - da despensa ou da geladeira. No Brasil, infinitos ingredientes são bem vindos nela, como cambuquira (ponteiro do pé de abóbora), a serralha, verdura que cresce naturalmente nas regiões serranas do país, além de vários tipos de feijões, verdes ou não. Daí, é quase impossível encontrar uma receita única, ficando ao sabor das variações familiares e regionais. Ao lado, a minha receita de Minestrone.
A RECEITA
Confira tudo o que é necessário e como fazer uma sopa deliciosa para seis pessoas
Ingredientes:
400g de carne magra em cubos pequenos (pode ser paleta, coxão mole, alcatra ou músculo); 2 xícaras (chá) de feijão branco cozido, porém com seus grãos ainda inteiros; 1 xícara (chá) de macarrão para sopa (Padre Nosso, Ave Maria ou outro de sua preferência); 1 e ½ litro de caldo de carne; 1 abobrinha italiana, verde, fresca, cortada em cubos pequenos; 1 cenoura média, também cortada em cubos; 1 cebola branca, média, grosseiramente picada; 2 talos de salsão, lavados, picados em ½ cm, aproximadamente; 1 batata média, picada em cubinhos; ½ xícara de chá de vagens, verdinhas, picadas; ½ xícara de chá de ervilhas frescas; 1 mandioquinha salsa, amarelinha, cortada em tiras grossas; 2 colheres (sopa) de pimentão amarelo em cubos, sem a pele; ½ xícara (chá) do caule de um alho porró, em rodelas; 6 ou 7 brotos de brócolis; 10 tomatinhos cerejas, vermelhinhos, inteiros; 5 colheres (sopa) de azeite extra virgem; 3 colheres (sopa) de molho de tomate; Uma chuva, feita com as pontas dos dedos, de orégano seco; 3 ou 4 ponteiros de basilico (manjericão) fresco, verdíssimos; Sal e pimenta do reino, quebrada na hora, a gosto.
Como fazer:
Ao trabalho então: escolho uma bela caçarola e nela aqueço bem o azeite para fritar os cubos de carne até ficarem selados. Acrescento a cebola, as pimentas do reino quebradas e as colheres de molho de tomate e refogo mais um tanto. Junto ½ litro de caldo de carne e espero a carne ficar bem macia. Então, coloco um pouco mais do caldo e quando ferver entro com a cenoura, as vagens, a batata e os feijões. Reduzo bem o fogo para que apenas cozinhe e não desmanche os legumes. É a hora da abobrinha, das ervilhas frescas, dos tomates cerejas e do macarrão. Mexo delicadamente para não ferir os ingredientes e permito que ferva por mais 10 minutos em fogo baixo. Dou-lhe então o alho poró, o salsão, os brócolis e o pimentão. Vou conferindo o sabor e ajustando o sal e, se necessário, agrego mais um pouco de caldo. Acrescento o orégano, as folhas de basilico e dou a última conferida no sal. Espero mais alguns minutos e sirvo a sopa fumegante. Será suficiente para seis pessoas. Já no prato, aceita um fio de confiável azeite, mais ervas frescas e queijo tipo parmeggiano na sua finalização. Uma dica: corte o pão italiano em fatias, passe nelas azeite e alho e torre por alguns minutos. Não há pra ninguém.

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