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Cidade
Usinas ameaçadas
Redução de prazo para fim de queimadas preocupa produtores
ANA CRISTINA ANDRADE Especial para a Gazeta
Cinqüenta por cento das usinas de açúcar da microrregião de Piracicaba - atualmente são nove - podem ir embora por causa da redução do prazo final da prática de queimada cana-de-açúcar em áreas não mecanizadas de 2031 para 2017, conforme protocolo de cooperação assinado por Jose Serra na última segunda-feira. A avaliação é do presidente da Associação dos Fornecedores e Cooperativa dos Fornecedores de Cana de Piracicaba, José Coral.
Apesar de faltar dez anos para o encerramento das queimadas, Coral diz que é preciso pensar desde já nas conseqüências e se preparar para que o prejuízo não seja maior ainda."Se as usinas saírem, haverá prejuízo de impostos para o município porque a agricultura canavieira é grande geradora de tributos. Será uma perda muito grande não só para Piracicaba, mas para Charqueada, São Pedro, Ipeúna, Rio Claro e todo o contorno de uma região que tem 1050 produtores dos quais 76% são micro", afirma Coral. Ele diz que Piracicaba tem 50 mil hectares de cana e a área base, que engloba 35 municípios, possui 300 mil.
Um dos maiores problemas do município, de acordo com Coral, é a declividade das áreas que dificulta o trabalho mecanizado. "E não é só isso. Cada máquina custa em torno de R$ 800 mil e deverão ser gastos mais R$ 400 mil com adaptações. Quem vai ter R$ 1,2 milhão, em se tratando de pequeno produtor, para investir no equipamento?", questiona.
Outra preocupação de Coral é com o desemprego que vai ser gerado com o fim das queimadas. "Cada máquina, para se ter idéia, substitui de 100 a 120 trabalhadores e na microrregião há 10 mil empregados diretamente no setor", ressalta.
José Coral declara que os produtores da região estão inconformados com a assinatura do protocolo. "Temos consciência de que a queimada vai ter de acabar um dia, mas quando fizemos a Lei houve a participação da Promotoria, das indústrias, dos fornecedores e de boa parte da sociedade. Quando houve a determinação de que o prazo seria 2031 também concordamos, mas agora o governador vem e reduz esse tempo pela metade. É uma medida não só drástica, mas antipática", reclama.
Investir em outro tipo de lavoura não seria a solução contra o prejuízo que o final das queimadas vai causar, conforme avaliação do presidente. "Qualquer lavoura como cultura de milho ou frutífera, por exemplo, é uma questão problemática por causa do solo. Acredito que vamos ter mais divisões de solo, loteamentos, chácaras, e menos áreas rurais", declara.
Se ocorrer incentivo para outro tipo de lavoura, segundo ele, será para a soja já que está sendo montada a usina de biodiesel, a qual vai consumir uma quantia significante desse grão. "Será uma alternativa, mas com lavoura de quatro ou cinco meses, pois não se pode comparar com a cana que é uma floresta amazônica jogando oxigênio durante 12 meses", declara.
"Piracicaba sempre foi o maior centro açucareiro da América Latina, o berço da lavoura canavieira. As indústrias pesadas vão continuar produzindo para o Brasil e para o mundo, mas aquelas que aqui nasceram terão muita dificuldade de afirmar a sua continuidade", acrescenta.
Solo complicado
A questão da declividade do solo de Piracicaba é também um problema, segundo José Coral, e para isso deverá ser desenvolvida uma máquina apropriada para esse tipo de terreno. "Só não sabemos quando, porque as fábricas estão totalmente tomadas e com suas carteiras completas. A verdade é que tínhamos até 2031 para acabar com a queimada em áreas não mecanizadas e o prazo foi reduzido para 2017. É evidente que vamos nos esforçar para cumprir a determinação, mesmo não concordando com a medida".
Ele lembra que o governo diz que queimada é nociva à saúde e ao meio ambiente, porém, acredita que "não incomoda tanto quanto os veículos que usam combustível fóssil, que a poluição das indústrias ou dos próprios rios. O que mais incomoda é vermos muita gente desempregada na rua e crianças nas esquinas fazendo malabarismo, que se torna mais prejudicial ambientalmente falando, que a fuligem que a queimada gera", afirma.

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