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Paulo Coelho
Imitando os mestres
Repetindo os seus passos

Por Paulo Coelho

Crédito: Niels Ackermann/Rezo

Um discípulo que amava e admirava seu mestre, resolveu observá-lo em todos os detalhes, acreditando que – ao fazer o que ele fazia, iria também adquirir sua sabedoria.
O mestre só usava roupas brancas, e o discípulo passou a vestir-se da mesma maneira.
O mestre era vegetariano, e o discípulo deixou de comer qualquer tipo de carne, substituindo sua alimentação por ervas.
O mestre era um homem austero, e o discípulo resolveu dedicar-se ao sacrifício, passando a dormir numa cama de palha.
Passado algum tempo, o mestre notou a mudança de comportamento do seu discípulo, e foi ver o que estava acontecendo.
- Estou subindo os degraus de iniciação – foi a resposta. – O branco de minha roupa mostra a simplicidade da busca, a alimentação vegetariana purifica o meu corpo, e a falta de conforto faz com que eu pense apenas nas coisas espirituais.
Sorrindo, o mestre o levou até um campo onde um cavalo pastava.
- Você passou este tempo olhando apenas para fora, quando isso é o que menos importa – disse.
“Está vendo aquele animal ali? Ele tem a pele branca, come apenas ervas, e dorme num celeiro com palha do chão. Você acha que ele tem cara de santo, ou chegará algum dia a ser um verdadeiro mestre?”
Ainda está faltando algo
O mestre yogue Paltrul Rinpoché ouviu falar de um ermitão com fama de santo, que morava na montanha. E foi encontrá-lo.
- De onde vem você? - perguntou o ermitão.
- Venho de onde minhas costas apontam, e vou para onde está voltado meu rosto. Um sábio deveria saber disso.
- É uma resposta tola e metida à filosófica.
- E o senhor, o que faz?
- Medito há vinte anos sobre a perfeição da paciência. Estou perto de ser considerado santo.
- As pessoas já o consideram assim. Você conseguiu enganar todo mundo!
Furioso, o ermitão levantou-se:
- Como ousa perturbar um homem que busca a santidade? – gritou.
- Ainda falta muito para chegar a isso. Se uma simples brincadeira o faz perder a paciência que tanto busca, estes vinte anos foram uma completa falta de tempo!
O poder e a glória
Havia um rei de Espanha que se orgulhava muito de seus ancestrais, e que era conhecido por sua crueldade com os mais fracos.
Certa vez caminhava com sua comitiva por um campo de Aragón, onde anos antes havia perdido seu pai em uma batalha, quando encontrou um homem santo remexendo uma enorme pilha de ossos.
- O que você está fazendo aí? - perguntou o rei.
- Honrada seja Vossa Majestade - disse o homem santo. - Quando soube que o rei de Espanha vinha por aqui, resolvi recolher os ossos de vosso falecido pai para entregar-vos. Entretanto, por mais que procure, não consigo achá-los: eles são iguais aos ossos dos camponeses, dos pobres, dos mendigos e dos escravos.