Emílio Moretti
Cemitérios com arte e design
A arte tumular é um valioso universo para reflexão

Por Emílio Moretti

Emílio Moretti

Crédito: Del Rodrigues

Emílio Moretti

O Cemitério é uma instituição cultural da sociedade ocidental. Existe uma tendência hoje, nas principais cidades do mundo, de valorizar os cemitérios como locais de reflexo da cultura e da sociedade, por meio da arte que imprimem em seus túmulos e trabalhos paisagísticos.
Arte tumular ou arte funerária, é um termo usado para designar obras feitas para permanecerem em cima ou envolverem as sepulturas nos cemitérios e igrejas.
A arte tumular atingiu seu apogeu nos séculos XVIII e XIX, sendo hoje menos utilizada em virtude do avanço do cemitério-jardim.
A origem do cemitério convencional remonta aos campos-santos do seculo XVII que ocupavam o espaco, em torno da Igreja. Eram abertos e integrados na estrutura urbana da cidade, adaptando-se as diversas funções como local para sepultura, feira e mercado. Tornou-se extra-urbano na época de Napoleão. No período de 1860 a 1930, proliferaram os cemitérios do tipo convencional, então secularizados e podemos que este foi o seu período de apogeu (Borges, 1991).
Arte funerária
A arte funerária recebeu pouca importância nos séculos XIX e XX.
A escultura funerária foi realizada, por vezes, por escultores de renome. Algumas de suas obras tornaram-se modelos de renovação artística como o Monumeto de Maria Cristina da Áustria, do escultor Canova, datada de 1805. Nesta obra, o escultor introduz pela primeira vez a idéia do tempo finito, ao contrário da eternidade.
Na Europa, em geral, o monumento funerário era dedicado somente a indivíduos dotados de caracteres excepcionais.
Na França, o túmulo era visto coma uma obra de arte de grande valor estético do que uma construção funcional. Artistas consagrados como Pradier, Rodin, Jean Arp e Brancusi são exemplos.
Na Itália a arte funerária esteve mais sob a responsabilidade de artistas-artesãos mantidos no anonimato. As necrópoles italianas eventualmente tiveram a contribuição de artistas como Bartolini, Bistolfi e Fabiani.
No Brasil, a arte funerária origina-se de quatro situações distintas.
1) Os centros metropolitanos importavam mausoléus do estilo art-nouveau da França.
2) Poucos túmulos foram construídos por escultores brasileiros considerados influenciados pelo modismo da época - art-nouveau, considerado símbolo da modernidade. Foram eles Rodolfo Bernardelli, Otavio Correia Lima, Belmiro de Almeida, Galileo Ernendabili, Luigi Brizzolora, Amadeu Zani, e Hildegardo Leão Veloso.
3) Os escultores modernistas dos anos 20 também deram sua contribuição para a arte funerária. Podemos citar projetos do arquiteto Antonio Garcia Moya, as esculturas de Celso Antonio, Bruno Giorgi e de Victor Brecheret.
4) Existe o predomínio de uma produção funerária feita por artistas-artesão oriundos de marmorarias instaladas, em sua maioria, por imigrantes italianos e portugueses. As obras não se baseava em determinadas regras de arte, mas em modelo adotados por todas as marmorarias dos séculos XIX e XX da Europa.
Antonio Canova, "Monumento funerário a Maria Cristina d?Austria" Vienna.
Simbologia dos túmulos
Muitos símbolos usados na arte tumular revelam o contexto social e cultural em que foram utilizados, pelo que, qualquer chave de interpretação pré-definida, pode redundar em conclusões erradas. Muitos túmulos erguidos nos cemitérios durante o Romantismo, os símbolos mais utilizados foram determinadas flores e coroas vegetalistas, figuras alegóricas (nomeadamente as que representavam virtudes cristãs), certos animais (como o cão, para demonstrar fidelidade), a cruz (como símbolo da fé cristã), tochas invertidas, ampulhetas e génios da morte (inspirados nos túmulos da Antiguidade Clássica), anjos (de diversos tipos), entre muitos outros.
Com relação ao significado dos objetos construídos encontramos em cada jazigo a narrativa de muitos histórias como no caso de muitos imigrantes que têm suas trajetórias narradas desde a partida da terra natal com o navio até o final da vida como industrial no Brasil.
Nessas representações podemos distinguir duas linhas: a nobreza e a burguesia industrial; a primeira utilizava mais o símbolo aliado a seus brasões e a segunda tinha a necessidade de demonstrar a sua importância através da suntuosidade.