FREI SIGRIST
Preservação da história
A conservação estrutural tem sido garantida pela Emdhap

Por Da Redação

Casa de Frei Sigrist

Crédito: Mateus Medeiros

Casa de Frei Sigrist

Segunda-feira, 3 de agosto de 2020
O barraco de madeira do Frei Sigrist, situado no bairro Jardim Glória, em Piracicaba, está prestes a ser tornar um caso raro de Tombamento. O espaço onde viveu o religioso está em processo de análise pelo Codepac - Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Piracicaba, com votação nesta sexta-feira (7). De acordo com Claudinei Pollesel, historiador e membro-titular do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, que estuda a vida do Frei Sigrist, são raríssimos os Tombamentos Históricos de construções de madeira. “Além do barraco do Frei Sigrist, em Piracicaba, outro caso conhecido é a Casa de Chico Mendes, em Xapuri, no Acre”, lembrou o historiador.
Atualmente, o "Barraco do frei Sigrist" é zelado pela pedagoga e professora Débora Razze, em substituição à dona Joana, impossibilitada pela idade avançada. A conservação estrutural, bem como o fornecimento de água e luz tem sido garantida pela Emdhap - Empresa Municipal de Desenvolvimento Habitacional de Piracicaba.
“Num futuro próximo o desafio é criar uma "Associação dos Amigos do Barraco do Frei Sigrist" que coordene a utilização de forma racional e abrangente este espaço cultural, histórico e religioso, envolvendo a Comunidade e as forças vivas da cidade de Piracicaba”, disse Pollesel.
Conhecer para amar e preservar
“A lembrança da vida e obra de Frei Sigrist está viva e presente em todos que tiveram o privilégio de conhecer e desfrutar de sua santidade. Nunca foi esquecido apesar de terem passado mais de 20 anos de sua morte. Carinho, amor, respeito, veneração e saudades estão presentes em todos os seus amigos. Em Helvetia, na Congregação dos frades Capuchinhos, na longínqua Suíça, na Diocese de Piracicaba e especialmente no bairro Jardim Glória, sua figura resiste ao tempo e seu exemplo de amor permanece intacto. Não raro vemos lágrimas escorrerem nos rostos de seus amigos, emocionados com sua lembrança”, descreveu Claudinei Pollesel autor de biografia do religioso.
Na sua obra "Deo Omnis Gloria - Frei Sigrist, A Vida De Um Homem Santo", lançada em 2018 pelo Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, Pollesel traça toda a trajetória da ocupação do bairro Jardim Glória II, que teve inicio em 1975, focando especialmente o trabalho religioso e de construção de moradias pelo Frei Sigrist. Em 2020 ocorreu a Regularização Fundiária, quando os moradores receberam as escrituras definitivas de suas casas.
A seguir, trechos da obra literária de Claudinei Pollesel sobre a comunidade do Glória e Frei Sigrist
A criação da Paróquia São Francisco Xavier, do Itapuã
Em 1981 é criada a Paróquia do Itapuã, pelo Bispo Dom Eduardo Koaik, bem próxima da favela do Jardim Glória II, também num terreno ocupado. O pároco é o querido e saudoso missionário xaveriano italiano, Padre Vicente Tonetto, carinhosamente chamado de "padre Vicentão, padre motoqueiro, o pai dos pobres".
É auxiliado pelo Padre João Bortolocci Filho, recém-ordenado. A situação precária dos moradores daquela favela, talvez a mais carente do município, não passa despercebida e Padre Vicentão ampara estes seus paroquianos, visitando-os com frequência, socorrendo-os com remédios e alimentos. O barraco pioneiro de dona Joana e seu Zé vira "igreja" e lá são celebradas as missas, até que a Comunidade construa uma capelinha de madeira.
A chegada dos frades capuchinhos
Em fevereiro de 1985 chegam os frades capuchinhos, para viverem naquela favela, "como pobres, para os pobres e com os pobres", autorizados e incentivados pelo Padre Vicente. Vieram os seminaristas Carlos e Toninho, acompanhados pelo guardião frei Francisco Erasmo Sigrist.
São alegremente recebidos por dona Joana que vende para eles o barraco em frente de sua casa, que pertencia ao seu filho Isaias. Neste barraco é instalada então a "Fraternidade Nossa Senhora da Glória", após algumas adaptações mínimas.
Esta fraternidade franciscana existirá neste barraco até o ano 2000. Frei Sigrist permaneceu ali como guardião por 13 anos, até sua morte em 18 de outubro de 1998. Além de Frei Sigrist, frei Carlos Silva e Toninho, os pioneiros, residiram, ali, os freis e estudantes, de forma alternada: Cassio Padovani, Frei Pedro Cesar Silvério, Francisco de Assis Pereira de Campos (Frei Tito), Frei Antônio Carlos Mendes (Frei Tonhão), Frei José Gomes de Souza Júnior (Frei Portuga), João de Deus, Nicola Gianinnazzi, Frei José Orlando Longarez, Nelo e Nilson Cajuru.
Frei Sigrist sonha com a transformação da favela
Frei Sigrist e sua fraternidade franciscana não ficam indiferentes àquela realidade trágica de pobreza e sofrimentos. Providencia atendimento médico básico, incentiva a alfabetização de adultos, envolvendo os seminaristas franciscanos. Organiza a distribuição de sopa diária, pois a fome era uma realidade infame em muitas famílias. Com a ajuda de amigos e parentes, suíços principalmente, arrecada fundos e inicia uma grande transformação na favela e nos corações daquele povo.
Organiza os trabalhos em mutirão, fabrica os blocos de cimento com a betoneira doada pela Diocese de Piracicaba, cobra ações da Prefeitura e assim põe seu sonho em prática: construir 120 casas de alvenaria no lugar dos barracos. Não importaria religião ou qualquer outro meio de seleção, todos receberiam suas casas, dando preferência ás mulheres arrimos de família e famílias com doentes.
Cria a Associação de Moradores e controla toda a movimentação financeira e os mutirões, fazendo com que os trabalhos progridam. Ao mesmo tempo mantém sua rotina de professor no Seminário Seráfico São Fidélis, do Curso de Teologia para Leigos e na Escola de Formação de Agentes da Pastoral; de Vigário Paroquial na centenária Igreja dos Frades e de capelão em mais de uma dezena de capelas rurais.
Orienta inúmeras pessoas que o procuram para aconselhamento espiritual. Seu barraco está sempre de portas abertas para seus amigos e fiéis que percebem nele os traços de santidade. Tem carinho especial pelo Sacramento da Confissão. Torna-se colaborador do "Movimento das Equipes de Nossa Senhora", colocando á disposição todo seu conhecimento teológico.
Frei Sigrist morre na cozinha do barraco
A irmã morte encontrou Frei Sigrist preparando um café na manhã do domingo, 18 de outubro de 1998. Foi encontrado pouco depois caído no chão da cozinha, já morto e tendo ao seu lado os fiéis companheiros, o cãozinho Dib Dab e a gatinha Pita. Era o seu velório franciscano. No humilde fogão o caneco com água ainda fervia no fogo.
Morreu aos 66 anos de idade, tendo exercido o Ministério Sacerdotal por menos de 15 anos, mas realizou grande parte de seu sonho. Foram construídas 100 casas de alvenaria; abertas as ruas que receberam arborização com palmeiras e calçamento; construídos lindos muros de pedras para arrimo dos barrancos, que também embelezavam a favela; a capela em honra á São Francisco de Assis e Santa Clara, com mosaicos belíssimos e toda rodeada por palmeiras imperiais, quase pronta, aguardando para ser inaugurada no Natal daquele ano; o salão paroquial, no subsolo da paróquia, já em uso pela comunidade, para missas e atendimentos sociais; todo o Saneamento Básico já estava providenciado pela Prefeitura, água, luz e esgoto em todas as casas. Faltava ainda um pouco e coube ao seu confrade e irmão mais querido, Frei José Orlando Longarez, o término do projeto original, até que a fraternidade fosse desativada no ano 2000.
O barraco: ruína e reconstrução
Com a saída dos capuchinhos o barraco manteve-se fechado e vazio. Desde então aquele espaço foi respeitado como local santo e histórico, testemunha e memória da vida de Frei Sigrist e da luta dos moradores da comunidade por uma vida digna e feliz. Foi carinhosamente cuidado por Dona Joana e o pouco que ali existia permaneceu cuidado e preservado: móveis, utensílios, papéis, roupas e Arte Sacra.
Em 2002, a comunidade junto com a vereadora Márcia Pacheco, inicia, junto ao CODEPAC (Conselho de defesa do Patrimônio Cultural), o processo de Tombamento para que seja reconhecido e preservado como patrimônio histórico do município de Piracicaba. Com o passar do tempo, começou a ruir, pois era feito do material mais simples e pobre possível, correndo o risco de desaparecer, mesmo estando em processo de tombamento.
Em 2010, novamente a Comunidade consegue através da ajuda fundamental da mesma vereadora Márcia Pacheco, que a EMDHAP (Empresa Municipal de Desenvolvimento Habitacional) reconstrua o barraco, nos mesmos moldes do original.
Frei Sigrist, frei Longarez, irmãos !....
Mas é em seu antigo confrade e amigo, Frei José Orlando Longarez, que a figura de Frei Sigrist encontra eco e resistência para perpetuar-se. Desde a morte do amigo tornou-se sua voz e não mediu esforços para que a sua vida e obra fossem conhecidas e imitadas. Assim que Frei Sigrist morreu, "Frei Longa" pediu permissão aos superiores e retornou ao bairro Jardim Glória e assim pode coordenar a construção das 20 casas que faltavam no projeto original, finalizou também a construção da belíssima Capela de São Francisco de Assis e Santa Clara.
Foi sua inspiração a instalação do mosaico com a imagem de Santa Clara na Capela do Santíssimo. Organizou Semanas Culturais, com debates e reflexões de temas atuais; cobrou ações da própria Congregação Capuchinha para manter o legado de Frei Sigrist no bairro Jardim Glória; organizou uma apresentação magnifica de balé na favela, intitulado "Bolero do Borel", com a Companhia 'Luar de Dança', do Rio de Janeiro; trouxe o jornalista Caco Barcelos, da Rede Globo, para produzir um ótimo documentário que foi exibido no Programa 'Globo Repórter', que marcou época e é ainda lembrado.
No ano 2000, foi voto vencido dentro da Província dos Capuchinhos e concordou com o fechamento da Fraternidade dos Frades do bairro Jardim Glória, sendo seu último guardião. Mesmo não morando ali mantém contato frequente com seus antigos paroquianos e retorna com frequência ao bairro Jardim Glória, onde é sempre recebido com carinho e gratidão.