NOVO CORONAVÍRUS
Piracicaba tem 70,5% dos Leitos SUS de UTI ocupados
Os dados são dos três hospitais que atendem ao Sistema Único de Saúde

Por Adriana Ferezim

Médicos fazem treinamento no Hospital de Campanha para tratamento de Covid-19

Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

Médicos fazem treinamento no Hospital de Campanha para tratamento de Covid-19

Terça-feira, 26 de maio de 2020
O aumento dos casos de Covid-19 em Piracicaba preocupa os médicos que estão na linha de frente e vendo cada vez mais pacientes precisarem de internação. Na sexta-feira (22), dos 34 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTIs) habilitados pelo Ministério da Saúde para atender pacientes com o novo Coronavírus no Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade, 24 estavam ocupados, elevando para 70,5% a taxa de ocupação desses leitos de cuidados intensivos no município. Os dados são dos três hospitais que atendem à Rede Pública de Saúde.
São eles: Hospital Regional de Piracicaba (HRP) 'Doutora Zilda Arns', que tem 18 leitos de UTI, a Santa Casa de Piracicaba, com oito Unidades de cuidados intensivos e também oito leitos de UTI tem o Hospital dos Fornecedores de Cana (HFC). Na Rede Privada de Saúde, o Hospital Unimed de Piracicaba tem oito leitos de UTI para Covid-19.
No sábado (23), a cidade registrou o recorde de casos confirmados em um dia, desde o início da pandemia até o momento. Foram 46 positivados, o que elevou a 438 pessoas oficialmente com a Covid-19. Os exames positivos ocorreram em 28 mulheres, com idades de 22 a 85 anos, e 18 homens, na faixa etária de 23 a 81 anos. De acordo com o prefeito Barjas Negri (PSDB), esses novos casos foram de exames realizados em laboratórios particulares e não da Rede Pública
São 242 pessoas recuperadas
A cidade registrou 22 óbitos, tem ainda outros 81 casos suspeitos, 174 pessoas em tratamento, internadas e em isolamento domiciliar. Já se recuperaram 242 pessoas e outros 929 casos suspeitos foram descartados. O total de internações na sexta-feira (22) era de 61 pessoas, um aumento de 12,4% em relação aos 54 pacientes internados no dia 15, sexta-feira da semana anterior, nos quatro hospitais.
Os médicos e gestores preveem um mês de junho crítico, porque a cidade está cerca de 20 dias atrás da data epidemiológica da cidade de São Paulo, que está próximo de chegar ao limite de ocupação dos leitos hospitalares e a interiorização do vírus já foi alertada pelo Ministério da Saúde.
No Hospital Unimed, dos oito leitos de UTI abertos e isolados, até o momento, para Covid-19, quatro estavam ocupados. A Unidade contava, ainda, com 11 pacientes nas Enfermarias, no dia 22. Na mesma data, no HRP, do total de 26 internações de pacientes com Covid-19 ou suspeita, 14 estavam nas UTIs.
O HRP aguarda a instalação de outros 20 leitos de UTI. A Santa Casa de Piracicaba tinha nove pacientes hospitalizados e dois em UTIs. No HFC, ainda na sexta-feira (22), seis pessoas estavam hospitalizadas, quatro em UTI. Piracicaba conta com 154 leitos de UTI nas Redes Pública e Privada.
A Secretaria Municipal de Saúde explicou que apenas 34 foram habilitados para Covid-19 no SUS e que outros leitos poderão ser habilitados, quando necessários. No entanto, esses 154 leitos também são usados para outras doenças, como infartos e AVCs.
No início da pandemia, a Prefeitura chegou a cogitar habilitar mais sete leitos na nova UPA do bairro Vila Cristina para pacientes com novo Coronavírus, elevando para 161 leitos com respiradores na cidade. Mas esse projeto foi alterado. Com a queda dos índices de isolamento, que não passaram de 45% no município, nessa semana, médicos viram aumentar significativamente o número de casos e internações. O mesmo ocorre na Região.
Nas 26 cidades da Diretoria Regional de Saúde X de Piracicaba (DRS-X), dados da Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo indicam que houve um aumento de 15,6%, em sete dias, na quantidade de internações nos hospitais que atendem as 26 cidades da Região por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), um dos principais sintomas da Covid-19. No dia 15, estavam hospitalizadas 870 pessoas com essa Síndrome. No dia 18, eram 927, no dia 21, 997 e na sexta-feira (22), 1.041.
Fácil transmissão e jovens em estado grave
O novo Coronavírus é de fácil transmissibilidade e, por esse motivo, o isolamento social foi adotado como principal meio para evitar a disseminação que preocupa os médicos, que deixaria todos doentes ao mesmo tempo, esgotando a capacidade do Sistema de Saúde em acolher os pacientes.
De acordo com o médico intensivista e coordenador da rotina da Covid-19 da Santa Casa de Piracicaba e do Hospital Santa Isabel, Sérgio José Dias Pacheco Júnior, estudos indicam que 80% das pessoas que contraírem o Coronavírus, 20% delas precisarão de internação e 5% terão o quadro grave da doença, podendo necessitar da ajuda de respiradores nas UTIs. .
"Temos notado que muitos jovens estão desenvolvendo a forma grave da doença. São pacientes que têm uma rápida evolução do comprometimento pulmonar e marcadores de inflamação pelo corpo, que fazem com que esses pacientes não reajam bem ao vírus, ao tratamento. Alguns casos de inflamação chegam a evoluir para insuficiência renal e precisam de diálise", afirmou.
O médico recomenda o isolamento social - sair de casa apenas para o essencial - e o uso de máscaras para proteção contra o vírus. "Cada pessoa tem um comportamento diferente de reação quando contrai a Covid-19. Temos idosos que passaram sem sintomas pela doença e jovens, na faixa de 20 anos, muito graves. Por esse motivo o tratamento não tem uma regra, porque não sabemos como vai responder o organismo do paciente. É muito individual de cada um", explicou.
Profissionais doentes
Quase 80 Profissionais de Saúde das Redes Pública e Privada estão doentes e outros que já se recuperaram depois de precisarem se afastar do trabalho, até não terem mais o vírus e poder retornar às atividades. Nessa semana, o médico e vereador Ary de Camargo Pedroso Júnior, descobriu que está com a Covid-19 e está em isolamento domiciliar desde quinta-feira (21). Ele é plantonista da UTI do Hospital Unimed.
De acordo com o diretor clínico do Hospital Unimed, José Durval Fraga, na Unidade, ao menos 40 médicos, enfermeiros, técnicos de Enfermagem e outros profissionais foram diagnosticados com a doença. "Boa parte da equipe já está voltando. É um vírus de alta transmissibilidade e os profissionais estão expostos o tempo todo", explicou.
Ele afirma que a falta de adesão ao isolamento social na cidade poderá aumentar a quantidade de casos e internações e que o município enfrenta um período de aceleração da doença.
"O vírus está circulando de maneira desenfreada, saiu dos grandes centros e nas cidades de porte intermediário, como Piracicaba, sem as pessoas ficarem em casa, não haverá como achatar a curva. Estamos ascendendo e nos comparando a países de Terceiro Mundo sem controle. A quantidade de casos que temos não é comparada ao que ocorreu nos países europeus", comentou.
O médico prevê um mês de junho muito difícil para as Unidades de Saúde. "Se nos próximos dias as pessoas não ficarem isoladas e principalmente usar máscaras, o tempo todo, teremos mais casos. Nessa semana já percebemos um aumento mais intenso do que a semana passada. Tínhamos quatro ou sete internações, agora está variando entre 15 e 17", disse.
Para ele, Piracicaba está preparada e vem se organizando para que o Sistema de Saúde consiga atender todos que necessitarem. "Mas o povo piracicabano precisa colaborar. Tem muita gente nas ruas, nos carros circulando nas avenidas. Está quase normal a circulação. Esse é o momento de se resguardar, ficar em casa. Valorizar esse ato que é de amor ao próximo e usar máscaras", concluiu.