CONFLITO EUA x IRÃ
O quanto as tensões preocupam os piracicabanos
A Gazeta foi à rua para saber as opiniões

Por Henrique Inglez de Souza

Estados Unidos e Irã: países trocam ameaças e têm relação de tensão depois de ataque americano que matou general iraniano

Crédito: Carlos Barria/Reuters

Estados Unidos e Irã: países trocam ameaças e têm relação de tensão depois de ataque americano que matou general iraniano

Terça-feira, 14 de janeiro de 2020
O recente conflito entre Estados Unidos e Irã trouxe um tom de tensão a este princípio de ano. Ofensivas de ambas as partes geraram apreensão pelo resto do mundo. Além do temor por uma guerra no Golfo Pérsico, a preocupação de diversos países envolve questões como Diplomacia, Comércio e Segurança. Nesse contexto, o tom adotado pelo Brasil gera críticas. Muito disso por sugerir alinhamento às investidas norte-americanas. Ou seja, deixando de lado a neutralidade história do País.
Uma nota divulgada pelo Itamaraty no último dia 7 condenou os recentes ataques à Embaixada dos Estados Unidos em Bagdá, Iraque. O texto externou apoio ao que classificou como “luta contra o flagelo do terrorismo”. Em declaração posterior, a jornalistas, o presidente Jair Bolsonaro colocou ainda mais lenha na fogueira.
Declarou: “Repudiamos terrorismo em qualquer lugar do mundo, e ponto final. É um direito deles, como é o meu também”. A manifestação brasileira acendeu um alerta, principalmente no país. Especialistas analisam o quanto pode custar uma abordagem sem a merecida cautela.
“Ainda é cedo para saber as consequências da escalada do conflito entre o Irã e os Estados Unidos”, disse Amâncio Jorge de Oliveira, professor-titular do Instituto de Relações Internacionais (IRI/USP) e Diretor do Centro de Estudos das Negociações Internacionais (Caeni/USP).
“O melhor cenário”, continuou, “embora pouco provável, é uma redução imediata do contencioso e retomada das negociações para a pacificação da Região. O cenário mais dramático será uma guerra envolvendo grandes potências, como Rússia e Estados Unidos. Mesmo no melhor cenário, o impacto econômico será sentido no Brasil, com o aumento de preços de produtos relacionais diretamente com o conflito, em especial combustíveis”. Pelo viés comercial, só para se ter uma ideia, o Irã mostrou-se um importante parceiro do Brasil em 2019.
Foi o segundo maior comprador de milho brasileiro, o quinto maior importador de soja e sexto maior de carne bovina brasileira. Oliveira reafirmou a necessidade de uma postura neutra, ainda mais no caso de uma guerra ser deflagrada. “O melhor para o país é não tomar partido ou não se envolver diretamente. Não temos poder militar nem porte político para isso, nem mesmo como mediar do conflito.”
E nós com isso?
A Gazeta de Piracicaba saiu à rua para saber o quanto as pessoas têm consciência dos eventuais reflexos da crise entre Estados Unidos e Irã. “Se o País se envolvesse, seria muito pior do que foi na época da greve dos caminhoneiros (2018)”, disse Iasmim Papille dos Santos, sobre uma eventual falta de oferta de produtos e serviços. “Por haver relações entre os mercados, creio que o conflito possa nos afetar. Me preocupo, porque temos que levar em consideração a sociedade - não só o nosso, mas toda a cadeia que há por trás do que chega ao consumidor. Isso pode ser prejudicado”.
Wanderson Elias dos Santos também não vê com bons olhos um desdobramento mais sério das tensões entre Estados Unidos e Irã. “Porque o Brasil exporta grandes quantidades de insumos para o Oriente Médio”, explicou. “Se o país toma partido de um dos lados, pode afetar nossa vida, principalmente no preço de insumos no mercado interno, no valor do petróleo... Sinto um pouco de receio se é só uma troca de farpas ou se algum dos lados está, realmente, com a intenção de iniciar uma guerra”.
Opinião semelhante tem Alana Peniche. “Vi uns dias atrás que assim que começaram esses afrontes mais fortes, o preço do barril de petróleo subiu, e que isso afeta o Brasil. Então, nós não sairemos impunes”, opinou. “E seria a pior ideia possível nos envolvermos nesse tipo de situação”, continua. “Tudo se resume a relações, e as relações afetadas pela guerra são imensas. A demanda dentro do País pode aumentar, afetando bastante nossa economia em vários aspectos”.
Embora contrário a guerras, José Roberto Marini tem uma leitura diferente das anteriores. Para ele, os conflitos entre Estados Unidos e Irã têm pouca influência no dia a dia do brasileiro. “Somos um grande produtor de alimentos, de petróleo. Somos quem alimenta o mundo. O brasileiro é muito lutador - tanto o pecuarista quanto o agricultor. Pra mim, não afeta em nada, não. O Brasil é suficiente para se manter”. Por outro lado, Marini notou as dificuldades quando se trata de peço dos combustíveis sobe. “No meu caso, que dependendo de estar na estrada com o caminhão, tudo fica ruim para, porque não consigo repassar as variações à pessoa que compra da gente”.
Conflito
Os eventos mais delicados, que acirraram as tensões entre Estados Unidos e Irã, aconteceram logo no princípio do mês. Um ataque norte-americano com drones resultou na morte do comandante da Força Quds iraniana, general Qassim Soleimani, no dia 3. O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, reagiu com a ameaça de uma vingança “implacável”.
A retaliação veio na semana passada, com mísseis atingindo duas bases aéreas dos Estados Unidos no Iraque. Foi o que Khamenei chamou de “tapa na cara” dos norte-americanos. Parecia o estopim de uma guerra sem volta, mas o clima entre os lados acabou se desviando do pior. Porém, há quem não descarte novos ataques.