BONS TEMPOS
Tempo de brincar
Escola promoveu Dia de Oficina de Produção de Itens Tradicionais

Por Marcelo Rocha

Escola Municipal de Ártemis promove antigas brincadeiras, como amarelinha, taco, pião, pipa, queimada, pega-varetas e bolinha de gude

Crédito: Adriano Rizzo

Escola Municipal de Ártemis promove antigas brincadeiras, como amarelinha, taco, pião, pipa, queimada, pega-varetas e bolinha de gude

Quinta-feira, 10 de outubro de 2019
Na saudável contramão do mundo moderno, apressado e das brincadeiras digitais ‘online’, ainda há gente que brinca de amarelinha, taco, pião, pipa, queimada, pega-varetas, bolinha de gude e outras formas de diversão de outros tempos. Uma dessas iniciativas (nostálgica, mas também pedagógica) aconteceu, na Escola Municipal 'Professor Décio Miglioranza', localizada no distrito de Ártemis. O estabelecimento de Ensino possui em torno de 400 alunos do primeiro ciclo do Ensino Fundamental, crianças com idades de seis a 10 anos.
No evento anual denominado 'Festa da Família' - cujo objetivo é trazer a comunidade do distrito, pais e responsáveis pelos alunos para o convívio escolar - os estudantes realizaram oficinas de produção de brinquedos artesanais com material reciclável. “A ideia foi resgatar esse passado de brincadeiras que se perdeu no tempo, sugerindo que cada pessoa confeccionasse o seu próprio brinquedo", explicou a diretora Cristiane Martim Campos de Godoy.
Foram realizadas Oficinas de produção de pipas, do jogo das cinco marias (saquinhos de tecido com arroz no interior que são utilizados numa disputa que envolve habilidade e coordenação motora), de bonecas abayomi (artesanais, feitas com nós de retalhos de pano), de kits de bolinha de sabão (feitos com lacre de latinha e bico de garrafa pet), de paraquedas de copinho de iogurte (versão do antigo paraquedas de pedrinha) e outras.
"Eu não conhecia a maioria desses brinquedos antigos. Achei legal a 'mãe da rua', que é uma brincadeira que a minha mãe gostava quando era criança", disse Luiz Henrique Moraes Santos, 10 anos de idade, aluno do 5º ano. A mãe, a técnica em Farmácia Jacqueline Moraes, 35 anos de idade, também aprovou a atividade escolar. "Hoje em dia, os pais trabalham muito, então essa Festa foi uma oportunidade para eles passarem um tempinho com os filhos e na Escola", observou a genitora.
A diretora da Escola salientou que, de maneira prévia, os alunos passaram por uma capacitação/treinamento para oferecer as Oficinas de Construção de Brinquedos. "Eles se prepararam para ensinar seus pais, pesquisaram sobre essas brincadeiras antigas e de que maneira poderiam fazê-las", comentou Cristiane. "Acima de tudo, esse evento estimulou a pesquisa, a confecção, a criatividade, a coordenação motora, a organização e o espírito de cooperação", analisou a educadora.
Especialista na área do brincar
Adriana Friedmann, antropóloga e autora do livro 'A Arte de Brincar', disse que de maneira geral até pode parecer que as brincadeiras tradicionais estão em desuso.
"Porém, dependendo dos contextos e Regiões Sócio-Culturais descobrimos, tanto nas comunidades, nas Escolas, Coletivos, praças, Periferias, Clubes, ruas fechadas e Parques, que essas brincadeiras se mantêm vivas e pulsantes, só que muitas vezes resignificadas", observou a pesquisadora que é a criadora do 'Mapa da Infância Brasileira', do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento (Nepsid) e de outros Projetos ligados à Infância.
Em um deles, desenvolvido em 2009, a especialista trabalhou na elaboração e coordenação do "Mapa do Brincar", iniciativa do Suplemento Infantil 'Folhinha', da Folha de São Paulo: www.mapadobrincar.folha.com.br/. "Mais de 10 mil crianças nos encaminharam depoimentos, fotos, vídeos e desenhos sobre suas brincadeiras, nomes e formas de brincar", contou Adriana.
"Sem negar o tempo e a incidência que os eletrônicos têm no cotidiano das crianças, estas brincadeiras (tradicionais) podem não ocupar um espaço tão importante, mas elas permeiam todas as infâncias", afirmou. Qual prejuízo a falta de brincadeiras/brinquedos tradicionais pode causar na formação das novas gerações? Na opinião da antropóloga, educadora e escritora "é o fato de não se socializarem e ficarem muito tempo sem se movimentarem".
"As brincadeiras tradicionais são também patrimônio cultural da humanidade e reflexo de valores das diversas culturas. Têm, assim mesmo, o potencial de promover o desenvolvimento integral das crianças", explicou. Brincadeiras lúdicas, socializadoras e estimulantes da imaginação são fundamentais para a formação e desenvolvimento de seres humanos íntegros e saudáveis, salientou Adriana.
"As brincadeiras são todas lúdicas por definição. O mais importante é deixar as crianças livres para escolherem com quem, do quê, onde e com o quê querem brincar, experimentar, se relacionar", aconselhou. "Propor brincadeiras dirigidas é interessante para compartilhar repertórios, mas é importante deixar as crianças resignificarem e inventarem a partir dos seus interesses e necessidades pontuais".