TEMA TRANSVERSAL
Educação Financeira será ensinada nas Instituições
Economista salientou que crianças e jovens devem ser instruídos

Por Marcelo Rocha

Planejando, dá! Administrando a mesada com cautela, o estudante Guga, 18 anos de idade, já comprou uma guitarra e agora mira um computador

Crédito: Divulgação

Planejando, dá! Administrando a mesada com cautela, o estudante Guga, 18 anos de idade, já comprou uma guitarra e agora mira um computador

Quarta-feira, 11 de setembro de 2019
É importante ensinar Educação Financeira para crianças e jovens? É uma maneira de prepará-los para o futuro? Especialistas, pais e educadores há tempos concordam que sim. Contudo, nesses tempos de crise e intermináveis turbulências econômicas do Brasil, o domínio precoce dessa “disciplina” é quase que uma virtude compulsória. O tema é tão relevante que uma nova diretriz da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) tornou obrigatória a transmissão desses conhecimentos para alunos do Ensino Fundamental, a partir de 2020.
O plano é ensinar princípios de Educação Financeira através da transversalidade. Ou seja, introduzindo o assunto em outras disciplinas. O Ensino da Educação Financeira, contudo, deve respeitar o que cada faixa etária pode comportar dos pontos de vista pedagógico e emocional, frisou o professor de Economia Bruno Pissinato, da Faculdade de Gestão e Negócios, da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep)
“A Educação Financeira faz parte do sentido mais amplo de como se vive em sociedade. No fundo, é uma preparação para o futuro, pois há um elemento chave que deve ser ensinado no âmbito pessoal e que, sobremaneira, caracteriza uma habilidade profissional: o planejamento”, afirmou Pissinato.
O economista salientou que crianças e jovens devem ser instruídos que o planejamento é a forma de realizar sonhos. “E só realiza sonhos quem lida e vive com a própria realidade, satisfeito com o apropriado nível de consumo, condicionado por valores simples e sadios”, declarou.
O produtor cultural, redator e roteirista Marcos Grossi é pai de três filhos. Ensiná-los a lidar com dinheiro desde cedo, ele diz, é “extremamente importante”.
“Sempre compartilhamos com eles, desde sempre, os momentos bons e também os mais difíceis. Claro que de forma amenizada, para que tomem consciência de que a vida não é uma constante bonança, ela se apresenta em fases, ondas... Às vezes, favoráveis, outras não”.
Um de seus filhos é Gustavo Alcarde Grossi, 18 anos de idade, o Guga, que acha que lida “mais ou menos com o dinheiro”. “Aprendi o básico com os meus pais. Aprendi a poupar e gastar com o que preciso”, relatou o jovem.
“Consigo cuidar bem da mesada por mais que eu gaste, às vezes, com algumas coisas desnecessárias. O dinheiro que eu economizo gasto em festas, com os amigos. Mas sempre deixo dinheiro guardado para um bem maior. Já comprei guitarra e agora estou juntando para comprar um computador. Gasto com consciência”, disse o estudante de Cursinho.
Guga tem duas irmãs, Natália de 30 anos de idade (que já está fora da planilha das mesadas familiares!) e Marina, de 10 anos de idade. “Para o Guga, nós depositamos o necessário para despesas como transporte e alimentação. Outras despesas ele vai negociando com a gente, aliás, ele é bom negociador. Ele já adquiriu boa noção de valor e já consegue controlar bem o impulso consumista”, disse o pai.
“Já a Marina é outra história, está no começo, ainda é bastante impulsiva e está sempre no vermelho”, comentou Grossi, fazendo menção à conta poupança para onde vai o dinheiro dado por avós e outros parentes.
Existe idade ideal?
A partir de que idade as crianças tem discernimento para lidar com Finanças? Este processo pode ser chamado de “socialização financeira”, disse Pissinato. E varia conforme o papel que o indivíduo assume em família e na sociedade.
“Ainda há uma certa cautela para definir a idade na qual as crianças já podem conviver com fatores financeiros. A explicação reside no fato de constituir uma certa discussão entre várias áreas por ser tratar de Finanças. Estas por si só já englobam, no mínimo, Economia, Administração e Contabilidade. Ademais, o processo educacional deve respeitar a Psicologia”, aconselhou.
A certeza é que nesses dias de grana curta, a falta de Educação Financeira do brasileiro - que, muitas vezes, desemboca em endividamentos, nome sujo em órgãos de proteção ao crédito - fica mais evidente.
“As causas da inadimplência se relacionam com a Educação Financeira quando não há prioridade no hábito de poupar. De modo geral, poupar é entendido como as sobras do consumo, ou seja, são colocadas em último lugar”, ressaltou o economista, que lembrou que, atualmente, o Brasil conta com cerca de 60 milhões de inadimplentes.
Avanço no currículo
Fábio Negreiros, dirigente-regional de Ensino, vê como positiva a inclusão da Educação Financeira em conteúdos pedagógicos de escolas do País. “Acredito que a presença da Educação Financeira proposta pela BNCC representa um avanço dentro do currículo”, avaliou.
“Fazemos parte de uma geração que não aprendeu a administrar e ter um comportamento adequado no tocante às finanças pessoais, o que gera consequências de endividamento coletivo. Introduzir a discussão da Educação Financeira contribuirá efetivamente para a formação cidadã”, acrescentou.
O educador ressaltou que a Educação Financeira será implantada na BNCC como um “tema transversal dos currículos de estados e municípios, envolvendo as diversas áreas de conhecimento”. 
“Há um entendimento que a contribuição mais importante da Educação Financeira esteja no fato de orientar o aluno, desde os anos iniciais, a desenvolver a capacidade de planejar sua vida levando suas reflexões para a família, que acarretarão tomadas de boas decisões financeiras a curto, médio e longo prazo”, afirmou.
Gestão da merecida mesada
O pagamento da mesada deve considerar a realidade da família. E a primeira lição sobre sua utilização é responsabilidade dos pais, com dicas bem simples sobre planejamento financeiro, definição de objetivos (que devem ser colocados numa planilha) e como fugir de dívidas. É importante que os pais tenham, ou adotem, uma vida financeira "saudável" que sirva de exemplo e seja imitada pelos filhos.
Para as crianças menores, vale lembrá-las que se gastarem tudo numa compra, não será possível adquirir outra coisa. Situações com brinquedos, jogos, encontros e lanches são oportunidades de ouro para isso. Até por volta dos cinco anos de idade devem ser realizadas brincadeiras para estimular o raciocínio lógico, além do famoso cofrinho para usar o dinheiro de forma sutil e eventual.
Entre os seis anos de idade e 10 anos de idade, podem ser introduzidas noções mais consistentes envolvendo o trato com o dinheiro, devido ao avanço no conhecimento matemático. Como estímulo, a mesada pode ser dividida em "quinzenadas" ou "semanadas". Também podem entrar em campo possíveis tarefas remuneradas (não os deveres!) e até mesmo premiações para resultados criativos e espontâneos.
A partir dos 10 anos de idade, as mesadas podem ser atreladas a uma melhor exposição da realidade, dos compromissos e responsabilidades, condicionando o consumo e até mesmo os presentes. A quantia dada não pode ser alta em relação aos gastos feitos pela criança ou adolescente, para que surja o controle de despesas e formação de poupança para projetos a serem realizados. Ensiná-los a anotar gastos e recebimentos incute disciplina e organização financeiras, primordiais também para o futuro no Mercado de Trabalho.
Fonte - Bruno Pissinato, professor de Economia.