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Pesquisadores estudam o aparecimento de onças-pardas na região

Por Adriana Ferezim

Estima-se que esse território pode abrigar até 30 animais

Crédito: iStock

Estima-se que esse território pode abrigar até 30 animais

Segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019
A região de Piracicaba fica em uma área de transição entre Mata Atlântica e Serrado é uma região que concentra muitos animais silvestres, e o mais recente e famoso que viralizou na internet foi a onça-parda. Flagrada à noite, circulando na Rua do Porto, sua presença motivou questionamentos de leitores sobre os motivos que estariam aproximando esse felino da área urbana. Para esclarecer as dúvidas e orientar as pessoas, também com o objetivo de incentivar a proteção desse animal, a Gazeta entrevistou por e-mail, na semana passada, dois especialistas.
O doutor em Conservação da Vida Silvestre pela Universidade de Oxford (Reino Unido), Silvio Marchini, e pesquisador-associado ao Laboratório de Ecologia, Manejo e Conservação de Fauna Silvestre (LEMaC) da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), que é liderado pela professora Kátia Ferraz, e o engenheiro e consultor ambiental, Ricardo Petrine Signoretti, da Caapuã Etê, que tem participado dos monitoramentos desses animais na região.
Sobre as recentes "aparições" de onças-pardas em Piracicaba - filmada pelas câmeras de um condomínio em 2017 e a mais recente, há um mês, na Rua do Porto, que viralizou na internet, Marchini afirmou que é possível apenas especular sobre as causas do aumento da frequência desses registros em áreas urbanas.
"É provável que a abundância desses animais venha aumentando na nossa região em resposta a mudanças nas práticas agrícolas. A diminuição das queimadas, por exemplo, poderia beneficiar as populações de onças-pardas tanto diretamente quanto indiretamente, ao permitir um aumento na abundância de presas, como roedores, aves e répteis. Pesquisas recentes revelaram que os canaviais abrigam parte significativa da base alimentar das onças-pardas na nossa região", afirmou.
Ele também destacou que as mudanças ambientais, socioculturais e demográficas, como a urbanização e o consequente esvaziamento do campo, e a diminuição da cultura de caça das presas (capivaras) e das onças, podem contribuir, mas ele ressalta ainda outro fator: "o aumento nos registros de onças deve-se também à disseminação das tecnologias por trás dos registros e compartilhamento de imagens, ou seja, câmeras de segurança, smartphones e redes sociais: se antes esses discretos animais transitavam na escuridão sem serem percebidos, hoje em diasão prontamente 'capturados' em vídeos e fotografias, que viralizam na internet", disse.
O engenheiro ambiental, afirmou, ainda, que boa parte dos ingressos desses animais em território urbano pode ocorrer por causa da separação dos filhotes de sua mãe. "Quando ficam jovens, são expulsos pela mãe de seu território e acabam se deslocando por grandes distâncias, atrás de uma área livre de outras onças para estabelecer um território próprio", explicou Signoretti.
Os encontros tendem a ser mais comuns. "Estamos em uma região com grande concentração de áreas urbanizadas e elas acabam permeando por esses ambientes. Outro aspecto, que pode explicar essas aparições em Piracicaba, é a grande população de capivaras vivendo na mancha urbana do município. Podem estar servindo de atrativo alimentar para esses animais", comentou o engenheiro.
Segundo ele, a densidade populacional das onças-pardas varia muito de acordo com a disponibilidade de presas e estudos sobre a densidade populacional não são comuns. "Um trabalho realizado na região do Triângulo Mineiro, apontou para a densidade de 2,2 indivíduos para cada 100 quilômetros quadrados. Numa conta simplificada, no município de Piracicaba, que possui 1.376,91 quilômetros quadrados, é provável que tenhamos em torno de 30 onças-pardas", informou, em hipótese.
De acordo com Marchini, pesquisadores do LEMaC e de outras Instituições têm estudado as onças-pardas da região. Eles as analisam "por meio de armadilhas fotográficas (câmeras remotas com sensores de movimento), colares de GPS e outras técnicas. Temos aprendido bastante sobre a Biologia e o comportamento desses animais. Isso é importante. Não temos, porém, estimativas precisas de quantas onças andam por aí: não podemos dizer com certeza onde e o quanto suas populações estão aumentando ou diminuindo", explicou.
Os registros realizados na região apontam que elas costumam se locomover no período noturno, próximo às áreas de mata e margens de rios e córregos. O engenheiro informou que e estudos realizados no Interior do Estado, indicam que as entre as presas das onças-pardas estão tatu, quati, gambás, capivaras e coelhos, além de aves e outros roedores menores.
"Geralmente, estão em áreas de vegetação nativa, onde encontram recursos para sua alimentação, abrigo e descanso", afirmou. Na área urbana, correm riscos de serem atropeladas, principalmente, ou mortas propositalmente, "o que constitui crime ambiental", ressaltou Marchini.
Elas podem predar cães e gatos. "Mas é preciso ver as coisas em perspectiva: a probabilidade do seu animal de estimação morrer por doença, acidente, ou atacado por outro cão ou gato, é muito maior que a de ser morto por uma onça-parda. O mesmo se refere ao risco às pessoas. Quando tivemos aquele registro por câmeras de segurança em um condomínio, soube de mães que proibiram suas crianças de brincarem fora de casa. Mesmo com a presença confirmada de uma onça-parda nas vizinhanças, o risco de uma criança ser atacada por um cão agressivo continua sendo muito maior. As estatísticas de ataques por cães domésticos - inclusive com fatalidades todos os anos - comprovam isso. Por outro lado, são raríssimos os registros históricos de ataques de onças-pardas sobre seres humanos no Brasil. No entanto, é da onça que aquelas mães tinham medo", comentou Marchini.
O pesquisador afirmou que é um grande avanço social ter a presença desses animais. "Deveríamos todos comemorar a presença de onças-pardas na nossa região. As notícias de avistamentos de onça sinalizam mudanças na nossa sociedade: adoção de práticas de uso de recursos naturais que permitem a existência de onças e suas presas, uma paisagem cada vez mais favorável a certas espécies da nossa fauna nativa, diminuição da caça, melhores sistemas de monitoramento e de segurança. Essas mudanças são boas. Claro que a onça-parda, como qualquer animal silvestre, deve ser tratada com respeito. Quando surpreendida em um quintal, chácara ou praça, a agitação das pessoas faz com que se sinta acuada. Reações agressivas nesses casos são raras. O mais comum é que a onça se encolha num canto ou busque refúgio em uma árvore. A melhor solução então é esperar até o anoitecer e sair do caminho: sem a perturbação das pessoas, a onça vai voltar pelo mesmo caminho que veio (se essa medida simples não for possível, então deve-se chamar os bombeiros para a captura e remoção). Enfim, a medida mais fundamental para evitar problemas com as onças é deixá-las em paz", disse.
Encontro com pessoas
As onças continuarão a surgir e "meu palpite é que seria ao longo das margens do rio Piracicaba", dsse Ricardo Signoretti, que explicou, ainda, que num encontro ocasional com as pessoas, elas tendem a fugir e que o ideal, se isso acontecer, é se afastar e deixar o animal, em paz, seguir o seu caminho.
"É por meio da informação - gerada por especialistas e disseminada pelos canais certos de comunicação, como esse jornal - que podemos ajustar à realidade o medo exagerado que tipicamente se tem de predadores grandes como a onça, e mostrar aos produtores rurais como evitar que seus animais domésticos sejam predados por onças. Nesse sentido, o LEMaC está lançando o Projeto 'Vizinhos Silvestres', que vai levar à população informação sobre como lidar com os animais silvestres que estão mais próximos de nós do que geralmente pensamos, entre eles o morcego, gambá, ouriço, quati, jibóia e, claro, a celebridade da vez, a onça-parda", destacou Marchini.
O Cenap-ICMbio disponibiliza o Manual 'Predadores Silvestres e Animais Domésticos - Guia Prático de Convivência', com dicas úteis para os produtores rurais e interessados. Ele pode ser acessado no link: www.icmbio.gov.br/cenap/images/stories/Guia_Pr%C3%A1tico_Conviv%C3%AAncia-Predadores_e_Animais_Dom%C3%A9sticos.pdf.