Nancy Thame
Escolhas para o futuro

Por Nancy Thame

Nancy Thame

Crédito: Divulgação

Nancy Thame

"A história do crescimento do século 21 irá destravar oportunidades sem precedentes e gerar uma economia global inclusiva, forte e sustentável. Os benefícios da ação climática são maiores do que nunca, enquanto os custos da inércia continuam a aumentar. Está na hora de uma mudança decisiva para a nova economia climática".
A mensagem acima faz parte do nosso dia a dia e, certamente, torna-se ainda mais viva em tantos momentos de incredulidade diante de catástrofes que nada mais são do que efeitos colhidos pela nossa inércia ou pelo nosso silêncio em relação a gestões públicas ineficientes e até mesmo irresponsáveis.
É nos municípios que tudo acontece, onde está a maior força no combate às mudanças climáticas. É onde a maior parte das pessoas vive e onde a economia global gira. De acordo com o novo relatório do New Climate Economy (Destravando a história do crescimento inclusivo do século 21: acelerando a ação climática em tempos urgentes), as áreas urbanas não estão tendo o uso do seu potencial de transformação para promover o desenvolvimento sustentável. E isso pode significar perder as últimas chances de reduzir a pobreza e deter as alterações do clima.
A maneira como 2,5 bilhões de pessoas estarão vivendo nas cidades em 2050 diz respeito às escolhas que estão sendo feitas nos dias de hoje. Mais de 60% do solo projetado para se tornar urbano até 2030 ainda não foi desenvolvido. Para um processo de urbanismo saudável, será necessário, segundo o relatório, balancear o desenvolvimento urbano sustentável em paralelo ao desenvolvimento rural sustentável. O novo relatório aponta três fatores essenciais para garantir o crescimento nas cidades no futuro: densificação para revitalizar cidades espraiadas, habitação sustentável e acessível e transporte de baixo-carbono, compartilhado e elétrico. O trabalho destaca dados, desafios e oportunidades nas três ações.
A alta na densidade populacional nas grandes cidades expõe problemas que contribuem para a desigualdade social, como os valores imobiliários e a vulnerabilidade a ocorrências climáticas extremas. Em paralelo a isso, é necessário conter o espraiamento das cidades através da "boa densidade", que promove bairros funcional e socialmente mistos, aloca serviços e emprego a distâncias caminháveis de residências e ocupa e regenera espaços vazios e degradados dentro das cidades.
O desafio será o de adaptar, reorientar ou até substituir infraestruturas existentes, processo que precisará do envolvimento e participação dos moradores locais. Regras de zoneamento, códigos de construção, requisitos de estacionamento, essas e outras normas devem ser avaliadas nas cidades.
Inúmeras oportunidades são geradas pelo desenvolvimento da boa densidade. Além de evitar os custos associados ao espraiamento, aos congestionamentos, a baixa qualidade do ar e aos acidentes de trânsito, investimentos podem passar a ser direcionados à construção de infraestruturas necessárias para as populações mais dispersas.
O segundo item a que nos referimos é a habitação. Temos hoje 330 milhões de famílias urbanas que sofrem com a sua falta de maneira acessível e segura, número que deve chegar a 440 milhões até 2025. Quando e como essas pessoas irão obter moradias irá determinar as oportunidades de emprego e saúde das mesmas.
Proporcionar habitação segura e acessível pode melhorar radicalmente as condições de vida de famílias mais pobres. As consequências de eventos climáticos como enchentes e incêndios, assim como doenças e o impacto da poluição do ar, são sentidas com mais intensidade especialmente por moradores urbanos de baixa renda. “É importante que as novas habitações sejam construídas em locais que ajudem as cidades a alcançar a boa densidade e o desenvolvimento resiliente, particularmente alinhando ao planejamento de infraestrutura e ordenamento territorial de maneira sustentável", diz o documento.
São diversas as oportunidades para direcionar os investimentos em infraestrutura e serviços relacionados à habitação para opções de baixo carbono e resilientes ao clima, afirma o relatório citado. Essas possibilidades incluem a gestão de resíduos, reciclagem e compostagem, geração distribuída de energia renovável e a melhor disponibilidade e custo de materiais de construção de baixo carbono.
O terceiro fator diz respeito ao transporte. A conectividade a serviços, emprego e moradia depende também do transporte urbano. No entanto, atualmente, em geral as redes e sistemas de transporte não fornecem condições acessíveis ou convenientes para a população. O desafio será o de adequar a infraestrutura para transformar o atual predomínio dos sistemas baseados no uso do carro para o transporte coletivo e para a descarbonização do transporte.
O incentivo ao transporte de baixo-carbono, ativo e coletivo beneficia especialmente os grupos de baixa renda, que são menos propensos a possuir carros, porém, mais propensos a serem vítimas de acidentes de trânsito e morar e trabalhar em áreas com menor qualidade do ar.
*Texto baseado no artigo de mesmo nome publicado por WRI Brasil, em 7 de outubro de 2018, no site “ArchDaily”