SÓ PARA FORTES
Sob o sol escaldante
Trabalhadores falam da labuta diária debaixo do sol abrasivo

Por Marcelo Rocha

A difícil rotina de quem precisa trabalhar em meio ao forte calor

Crédito: Del Rodrigues

A difícil rotina de quem precisa trabalhar em meio ao forte calor

Segunda-feira, 21 de janeiro de 2019
Carregar e descarregar equipamentos, vigas, vergalhões, preparar massa de cimento, assentar tijolos, subir e descer do andaime... Vida de ajudante de obra não é para fracos, definitivamente. Mas nesses dias de sol escaldante, com temperaturas acima dos 30ºC, nem mesmo os valentes suportam, a seco, o tranco do calor. “Na hora que está quente demais, eu ponho uma bermuda que sempre trago na bolsa, entro debaixo da mangueira e me ‘móio’. É o jeito!”, disse o piracicabano Felipe Fonseca, 30 anos de idade.
Ele é um dos trabalhadores que - a exemplo de jardineiros, garis, pintores, agricultores, agentes de trânsito e outros profissionais cascudos - diariamente encara o sol para garantir o sustento. Mas, afinal, qual é o limite do corpo humano para toda essa turma que, durante o Verão, tem uma rotina ultraquente? 
Outro bravo soldado da Economia Brasileira que trabalha debaixo da radiação solar é o mineiro Paulo Santos Pereira, 50 anos de idade. Na última semana, ele aparava a grama em um dos enormes canteiros do bairro Santa Rosa, próximo ao Parque Tecnológico de Piracicaba e aos Condomínios de luxo daquela região.
Além do cortador de grama, seu fardamento inclui EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) como a bota, a luva e o avental de couro, a viseira, o óculos, um protetor de ouvidos e um boné com extensor que protege o pescoço. Uma armadura razoável, ainda mais para um fim de manhã com insuportáveis 32ºC.
“A pessoa tem de ter coragem para isso, se não tiver, nem vem”, disse o jardineiro, que trabalha para uma empresa prestadora de serviços. “Mas tem horas que eu não aguento porque dá uma tontura. Daí eu corro para debaixo de uma sombra qualquer”, relatou.
Na quarta-feira (dia 16), a agricultora Sandra Stocco, proprietária de uma horta no bairro rural Bangé, relatou à reportagem da Gazeta que tem encerrado o expediente na roça antes do horário previsto por causa do clima abrasador. “O calor tá bravo! E olha que eu estou acostumada com isso, trabalho com horta há 29 anos”, contou a produtora que, neste Verão, acumula prejuízos de até 60% na produção de hortaliças em razão da quentura.
De acordo com a gerente do Departamento de Enfermagem da Santa Casa de Piracicaba, a enfermeira Denise Lautenschlaeger, o corpo humano tem a capacidade de se adaptar às temperaturas. Porém, o período de exposição em relação ao sol é que pode ser bastante prejudicial à saúde, ela alertou.
“Se você estiver andando sob o sol, em um dia com a temperatura entre 31ºC e 32ºC, a sensação térmica que o corpo tem em relação a isso é de 38ºC ou 39ºC, mais ou menos. O que implica (em risco) é o tempo de exposição, que pode levar à desidratação, sinais de insolação, lesões na pele por queimaduras de primeiro e segundo graus”, explicou.
“Ou seja, o corpo vai se adaptar, porém ele vai dar sinais de que as altas temperaturas podem estar tirando esta estabilidade hemodinâmica”. Outro que não pipoca debaixo do sol é o pintor Evandro César Pereira, de 50 anos de idade. Na última quinta-feira (17), às vésperas da estreia do XV na Série A-2 do Campeonato Paulista, ela dava as pinceladas finais nas arquibancadas do estádio Barão de Serra Negra, o templo do futebol piracicabano.
“Tenho muito calor, claro. E sinto que o corpo está com mais de 40 graus de temperatura. Mas, para aguentar, tomo dois litros de água pela manhã e, depois, mais dois litros de água à tarde. E também uso um meião e protetor solar para me proteger”, disse o trabalhador, que ainda se garante com chapéu de palha, luvas e uma camisa de manga comprida. “Tudo para deixar o estádio mais bonito. Isso dá autoestima para o XV”, comentou o pintor, que há 30 anos acompanha o Nhô Quim. 
EPI's, protetor solar e água
Os cuidados para qualquer pessoa exposta ao sol são os mesmos, não importa se ela está trabalhando ou não, observou a enfermeira Denise Lautenschlaeger. Em trabalhos sob sol extremo, o uso de EPIs é obrigatório. Desde que sejam feitas com tecidos adequados, as roupas de EPI pouco elevam a temperatura do corpo, esclarece a enfermeira da Santa Casa de Piracicaba.
“Nesses casos, essas roupas mais fazem a proteção UV (contra raios ultravioleta) do que elevam a temperatura interna do corpo”, afirmou. Contudo, EPI's com materiais mais comuns e/ou com tecidos não apropriados para exposição ao sol, podem aumentar muito a temperatura do corpo humano, chegando a 39ºC, 40ºC ou 41ºC, ressaltou Denise.
Também é importantíssimo o uso de protetor solar com fator de proteção adequado, que deve ser entre 50% e 70%, disse a enfermeira. “E esse protetor solar, vale lembrar, deve ser constantemente repassado na pele. Principalmente nas áreas mais frágeis, como o rosto e o peitoral”.
E, como se sabe, a hidratação também é essencial à saúde. “A quantidade de água que todo ser humano deveria tomar diariamente, independente da temperatura, ou se é Verão ou não, é de pelo menos dois litros. Mas se você está exposto a situações de calor extremo, como trabalhos ao ar livre, essa quantia pode ser dobrada. Ou seja, quatro litros diários é o recomendado nesses casos”, aconselhou.