CONCLUSÃO DA PERÍCIA
Laudo enumera falhas em acidente em Viracopos
O inquérito, apesar de ter sido concluído pela Polícia Civil, foi arquivado

Por Alenita Ramirez

Foto de arquivo do local do acidente: veículo em que as vítimas estavam despencou

Crédito: Cedoc/RAC

Foto de arquivo do local do acidente: veículo em que as vítimas estavam despencou

Sexta-feira, 11 de janeiro de 2019
As pesquisadoras da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Carolina Blasio da Silva e Maria Érbia Cássia Carnaúba, respectivamente com 33 anos de idade e 32 anos de idade, na época, morreram porque o estacionamento da área de embarque do Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), não tinha barreira de concreto. É o que foi constatado pela Perícia feita no local. O inquérito, apesar de ter sido concluído pela Polícia Civil, foi arquivado a pedido do Ministério Público (MP), em maio do ano passado, por considerar que não houve crime. 
A tragédia aconteceu na manhã do dia 26 de agosto de 2017, quando Maria Érbia deixava Carolina na área de embarque. Carolina seguiria para Juiz de Fora (MG). O carro em que as vítimas estavam despencou de uma altura de 11,4 metros e as duas morreram na hora.
Na época, o então chefe do núcleo do Instituto de Criminalística (IC) de Campinas, Edvaldo Messias Barros, comentou que um dos indícios para o acidente seria o uso do chinelo pela motorista, Maria Érbia, e que ele poderia ter enroscado no pedal. Entretanto, a reportagem apurou que a Perícia não conseguiu confirmar se a pesquisadora estava calçada com chinelos, já que um dos calçados estava entre o pedal e o assoalho e o outro, no porta-malas do carro.
O carro já entrou na curva do estacionamento derrapando. As marcas de derrapagem ficaram visíveis no piso. Maria Érbia perdeu o controle da direção e o carro entrou nas vagas do estacionamento, mas não parou. Bateu contra a barreira de proteção, que é de vidro e ferro e caiu de rodas para cima, no primeiro piso. Foi constatado que o veículo estava entre 44,3 e 54,2 quilômetros por hora, pouco acima do limite indicado na última placa de sinalização, que era de 30 quilômetros por hora.
Um perito ouvido pela reportagem, que solicitou anonimato, analisou o local, palco da tragédia, e avaliou que, além do material da estrutura da barreira ser o incorreto, a má sinalização e a falta de alguns equipamentos de segurança em determinados locais de acesso à área também contribuíram para o desastre.
“A sinalização instalada em locais inadequados não cumpre sua função de transmitir a informação em tempo e distância adequados, e permitir a correta tomada de decisão pela condutora”, disse o perito.
Falhas
Para o especialista, o parapeito de vidro existente no local, que tem oito milímetros de espessura, é inadequado, pois é apropriado como guarda-corpo para pedestre. Esse mesmo tipo de defensa é utilizado como barreira na parte interna do aeroporto “Aquele vidro não segura carro. Se a barreira fosse de concreto, o carro não teria precipitado por mais que ele estivesse correndo”, observou.
Na rampa de acesso à área de embarque existem dois totens. Antes dos pilares, não há dispositivos de segurança que impeçam o choque de veículos desgovernados contra as colunas dos totens ali existentes. Outras duas falhas na sinalização, observadas neste mesmo trecho, entre o início e o final da rampa, foram a sinalização horizontal da época, que passava informação errada, e a instalação da placa regulamentadora de velocidade ao final da rampa de acesso.
Foi justamente nessa região que o carro em que estavam as vítimas começou a derrapar. “A posição da última placa é inadequada. Ela não está dentro do campo de visualização, como previsto na norma de redução de velocidade. Está escondida”, comentou o perito.
Segundo o Manual Brasileiro de Sinalização de Trânsito, em seu volume 1, a placa tem que ser vista a uma distância de 80 metros. “O Contran (Conselho Nacional de Trânsito), determina tamanho e distância entre as placas de sinalização para que elas permitam a leitura do motorista, ou seja, as placas precisam ser visíveis para serem interpretadas a tempo”, observou. Algumas mudanças foram feitas na sinalização do espaço.
Emdec, SSP e Concessionária se manifestam sobre tragédia
Em nota, a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) disse que “anteriormente, a área interna de circulação de veículos nos sítios aeroportuários era de responsabilidade da Infraero”, sendo que esta poderia transferir tal responsabilidade para os concessionários.
“Atualmente, a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas (Emdec) deve aprovar os projetos e promover a fiscalização de trânsito no espaço”, citou em nota. A Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que o inquérito foi concluído pela Polícia Civil, mas que foi decisão da Justiça arquivá-lo.
Em nota, a Concessionária Aeroportos Brasil Viracopos disse que lamenta as mortes ocorridas no acidente. “Cabe informar que o veículo estava acima da velocidade permitida para aquele local, que é um estacionamento de veículos que fica em frente ao desembarque de passageiros. As placas de trânsito na via sinalizavam na época e sinalizam até hoje a velocidade máxima para o local de 30 quilômetros por hora no final da rampa de acesso”, citou.
Segundo a Concessionária, as vias de trânsito do local e toda a sinalização estão de acordo com as normas do Código Brasileiro de Trânsito (CTB).
Vítimas eram atuantes no meio acadêmico
Maria Érbia e Carolina eram pesquisadoras do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). As duas morreram após cair com o carro do estacionamento da área de embarque do Aeroporto Internacional de Viracopos. Carolina morava na Alemanha com o marido e uma filha de um ano de idade e estava no Brasil para defender a tese de doutorado na Unicamp. A apresentação foi no dia anterior à tragédia. A jovem tinha voo marcado para Juiz de Fora (MG), às 8h30, onde visitaria os pais. O acidente foi às 7h17.
Carolina era graduada em Psicologia (2006) e Filosofia (2012) pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com mestrado em Ciência da Religião pela mesma Instituição. Ela tinha defendido sua tese de doutorado em Filosofia, sobre noções de consequência generalizadas e lógicas plurivalentes.
Maria Érbia também concluiu seu doutorado no IFCH em 2017, onde era pesquisadora. Ela encerrou o mestrado em Filosofia pela mesma universidade, em 2012. E suas áreas de concentração eram Filosofia Contemporânea, Ética e Política e Teoria das Ciências Humanas. Também era graduada com licenciatura plena em Filosofia pela Unesp-Marília e tinha bacharelado pela Unicamp.
A pesquisadora era do Ceará, mas veio tentar a vida na região. De família humilde, foi morar em Sumaré (SP), onde ela estudou na rede pública. As duas eram amigas e Maria Érbia acompanhava Carolina Blasio até o aeroporto. No dia, o carro não chegou a reduzir a velocidade, bateu no meio-fio, perdeu o controle, acertou o guard-rail e despencou no Terminal.