RODOVIAS DA REGIÃO
Bichos soltos nas pistas amedrontam motoristas
Em Piracicaba, há relatos de presenças de capivaras nas vias

Por Marcelo Rocha

A presença de capivaras nas margens ou cruzando as rodovias da região coloca motoristas em alerta

Crédito: Del Rodrigues

A presença de capivaras nas margens ou cruzando as rodovias da região coloca motoristas em alerta

Quarta-feira, 16 de maio de 2018
O Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), que funciona na Universidade Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais, possui em seu portal um assustador placar eletrônico digital denominado 'Atropelômetro' (atualizado a cada segundo!), que informa a quantidade de animais que morreram neste ano em rodovias do Brasil. Recentemente, contabilizou a morte de cerca de 170 milhões bichos silvestres nas pistas do País, vítimas de atropelamento ou colisões.
Anualmente, segundo a mesma fonte, estima-se que 475 milhões de animais selvagens - desde pequenos vertebrados até animais de grande porte - são atingidos ao tentar cruzar vias brasileiras. Em Piracicaba, o assunto volta à pauta pelo relato de alguns motoristas que alertam as presenças de capivaras no entorno e nas faixas de rolamento das vias que cruzam o município, oferecendo riscos à fauna e aos condutores.
Um motorista contou que, na rodovia Deputado Laércio Corte (SP-147), é comum a presença de grupos de capivaras na bica localizada às margens da via, nas proximidades do acesso para o Anel Viário, no sentido Limeira-Piracicaba. "Elas atravessam a pista dupla da rodovia por baixo, pelo esgoto que leva a água do lado de cima da pista ali para perto de uma biquinha", comentou um engenheiro agrônomo.
Outros leitores citam a presença de capivaras na lagoa do Unileste, em frente ao Hotel Beira Rio (nas margens do rio Piracicaba), nas cercanias da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Piracicamirim e do Monumento do Peixe (na entrada da cidade, pela rodovia Luiz de Queiroz (SP-304).
"Onde também aparece muito é no Anel Viário, antes de chegar no Cadeião (Centro de Detenção Provisória 'Nelson Furlan'). E também, às vezes, vejo no caminho do Monte Alegre, antes do aeroporto, numa baixada onde tem um córrego. Elas ficam paradas no meio da pista, não sei se para tomar sol", afirmou um motorista particular.
Segundo informações prestadas pelo 2º Pelotão do Policiamento Rodoviário de Piracicaba, desde janeiro de 2017, até agora, "foram registrados oficialmente, por meio de boletins de ocorrência, 87 eventos/acidentes envolvendo animais na pista". Contudo, a Polícia Rodoviária salienta que não há uma estatística específica sobre ocorrências com capivaras.
O levantamento abrange todo tipo de acidente provocado por animais nas estradas das cidades que compõem a área de atuação da divisão da corporação, que, além de Piracicaba, abrande municípios como Rio das Pedras, São Pedro, Águas de São Pedro, Iracemápolis, Saltinho, Capivari, Charqueada e outros.
Em razão de sua participação na Comissão Técnica Permanente de Prevenção e Controle da Febre Maculosa, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), há anos o engenheiro agrônomo e entomólogo, Carlos Alberto Perez, também estuda o comportamento e os hábitos das capivaras - animal que é o maior do carrapato-estrela, o transmissor da doença.
Há alguns anos, lembrou Perez, a própria Esalq teve problemas com acidentes automobilísticos com capivaras, nas margens das duas rodovias que ligam o município a Limeira e Rio Claro.
"Para evitar acidentes nessas rodovias, a Esalq construiu alambrados, gradis e muros para conter as capivaras da Fazenda Areão, situada na Esalq. Hoje em dia, é impossível uma capivara transpor os limites da fazenda, elas estão bem confinadas ali. A Esalq fez a lição de casa", garantiu. No total, a Esalq possui cerca de 450 capivaras que vivem na Fazenda Areão e no campus Luiz de Queiroz, estimou Perez.
"Mas a verdade é que tem capivaras em toda a região, existe uma superpopulação delas. E os governos terão que se atentar para a necessidade do controle reprodutivo. Não tem outra alternativa, mesmo porque elas são muito prolíferas e aqui na região tem alimento à vontade para elas", declarou.
Artesp
A Agência Reguladora de Transportes do Estado de São Paulo (Artesp) informou que em 2017 foram registrados 1.380 atropelamentos de animais nos 8,3 mil quilômetros de rodovias sob concessão do Estado de São Paulo. No ano passado, disse a Artesp, em ações preventivas as Concessionárias de rodovias resgataram "na malha sob sua responsabilidade um total de 4.765 animais".
As empresas Concessionárias ainda desenvolvem ações como o monitoramento por meio de câmeras, instalação de telas em determinados trechos de rodovias e a construção de passagens de fauna para os animais atravessarem sem cruzar diretamente a pista.
"Em toda a malha de rodovias concedidas no Estado de São Paulo, atualmente, existem 117 passagens de fauna já instaladas. Além dessas, outras 36 estão em processo de implantação", frisou a Artesp.
A Agência salientou que os cães são as principais vítimas de acidentes em rodovias próximas a áreas de maior concentração urbana. Já em zonas rurais são os cavalos e bovinos que costuma invadir as pistas. "Nas áreas de mata, as ocorrências envolvem, basicamente, animais silvestres. Entre esses, os acidentes mais comuns envolvem capivaras, tatus, cachorros do mato, lobos-guará e onças", listou a Artesp.
Capivaras vivem em grupos
“A capivara é uma espécie de uma complexidade enorme. Elas formam uma sociedade familiar, na qual um macho alfa possui um harém", explicou o engenheiro agrônomo Carlos Alberto Perez, da Esalq. Segundo Perez, quando os machos jovens começam a reivindicar a chefia do harém "para cobrir as fêmeas, entram em luta com os machos alfa e, normalmente, são expulsos do grupo".
"Então, principalmente nesta época do ano, quando o alimento se torna mais escasso por causa do Outono, é comum vê-los andando próximos a gasodutos e linhões (torres de fornecimento de energia elétrica) em busca de novos rumos. É quando ocorrem essas migrações em massa", contou.
O pesquisador da Esalq disse que a capivara é um animal que gosta de lugares abertos e não de matas fechadas. "Ela prefere matas ciliares e pequenos segmentos florestais", observou. Por isso, elas estão muito bem ambientadas em Piracicaba, onde, além da geografia favorável, há grande oferta de alimentos para elas. "Aqui elas têm cana e capim à vontade, além de soja e milho e outras fontes de alimentação", afirmou.
O que fazer quando houver animais na pista
* Reduza a velocidade
* Não buzine para não assustar o animal
* Não pisque os faróis ou jogue luz sobre o bicho
* Feche os vidros ao passar perto de animais de grande porte
* Se for necessário ultrapassar, siga por trás dos bichos
* Depois de ultrapassar o animal, sinalize para os motoristas que vêm na direção oposta sobre o perigo, piscando os faróis (pisque três vezes o farol e posicione a mão para baixo, com quatro dedos abertos, o que indica a presença de bichos na pista)
* Comunique o fato para o 0800 da Concessionária responsável pela rodovia
* Ligue para a Polícia Militar Rodoviária.
Fonte: Agência Reguladora de Transportes do Estado de São Paulo/Artesp.