INDO À LUTA
Crise incentiva novos voos
Para garantir a sobrevivência, piracicabanos têm feito diferente

Por Marcelo Rocha

Diego Souza, o metalúrgico que investiu em drones

Crédito: Del Rodrigues

Diego Souza, o metalúrgico que investiu em drones

Cortes no orçamento, bicos, jornada dupla e outras peripécias profissionais. Desde que o País mergulhou nessa cruel e interminável recessão econômica, o brasileiro aperfeiçoou a sua já conhecida resiliência. Ou, em bom Português, o povo passou a rebolar ainda mais para garantir a sua sobrevivência e pagar seus carnês no fim do mês.
De fato, a vergonha moral, política e econômica na qual o Brasil está imerso vem testando a elasticidade, a paciência e a força de milhares de brasileiros como a piracicabana Marcela Fava, 38 anos de idade, e o rio-pedrense, Diego Oliveira de Souza, 30 anos de idade. No caso deles, contudo, a crise foi o gatilho que acionou o seu espírito empreendedor e a criatividade.
Há um ano, Marcela desligou-se de uma empresa de locação de material para eventos, onde trabalhava, e se viu à deriva. “Então, peguei o dinheiro do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) e comprei um forno industrial e uma balança, não sobrou nem um centavo”, declara, referindo-se aos equipamentos com os quais agora produz pães caseiros.
De uns tempos para cá, ela recebe pedidos de pães pela internet e percorre um circuito de empresas oferecendo pães tradicionais ou de coco a R$ 10,00 (pão inteiro) e R$ 5,00 (meio pão), além de bolos. “Vendo uma média de 16 a 20 pães por dia. E se der tudo certo, vou abrir a empresa no começo de 2018”, estima.
Marcela conta que mora com a mãe e duas filhas, de cinco e de 11 anos de idade. “Quando começou a crise, um dia eu cheguei para elas e disse: ‘Vamos aguentar porque isso um dia vai passar!’”, recorda Marcela, que há 19 anos também fatura uma renda extra fazendo topos de bolos personalizados em biscuit.
“Sabe quando você vê aqueles dois noivinhos em cima do bolo de casamento? Então, eu faço esses bonecos em biscuit”, explica. “E quando dá, eu também faço unha, cabelo e maquiagem para fora, para amigas e conhecidas. Não tenho medo de serviço”, diz a moça, que, temporariamente, precisou reduzir despesas. “Cortei o telefone fixo, a internet e os passeios”, relata.
Diego Oliveira de Souza, que desde os 14 anos de idade trabalha como metalúrgico, também foi uma vítima da situação econômica do País. “Sempre trabalhei na área de montagem de turbinas a vapor. Mas devido à crise, fui dispensado no inicio desse ano. E como não via muito mais crescimento nesse setor, resolvi arriscar na área de drones”, afirma o rapaz.
Ele encara o trabalho com drones como um “ramo vasto a ser explorado e cheio de possibilidades”, que oferece economia de tempo e dinheiro ao contratante dos mais diversos serviços feitos com as pequenas aeronaves teleguiadas.
“No ínicio, comecei como um hobby, mas com estudo, dedicação e muita troca de experiência estou vendo que em breve possa vir a ser minha única forma de renda. Estou começando a fazer novos cursos e me aperfeiçoando na área”, comenta.
Souza frisa que o primeiro passo em sua empreitada foi a compra de um “drone intermediário para ver se era aquilo que eu queria ter como nova profissão”.
Depois, ele fez um curso de pilotagem de drone para obter a uma licença fornecida pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), obrigatória para proprietários do aparelho voador (tanto para uso recreativo ou profissional), segundo lei aprovada em maio deste ano.
“E agora vou comprar um equipamento mais moderno, devido à concorrência e à qualidade superior do mesmo, o que agrega muito valor ao trabalho. Somado tudo isso, creio que foram uns R$ 9 mil de investimento”, calcula.
Cinquenta e sete por cento passaram a fazer bicos
Pesquisa recente realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) detectou que 76% do brasileiros acha que a atual situação financeira está pior ou igual ao ano passado. O mesmo estudo também apontou que, no primeiro semestre desse ano, 80% da população precisou fazer cortes nas despesas para sobreviver à crise.
Os itens mais cortados foram os seguintes: alimentação fora de casa (57%); roupas, calçados e acessórios (55%); idas a bares e restaurantes (53%); gastos com lazer e cultura (51%); viagens (51%); idas a salões de beleza (50%).
O levantamento - realizado junto a 600 consumidores, de ambos os gêneros, acima dos 18 anos de idade e residentes nas 27 Capitais - também informa que três em cada 10 brasileiros atribuem a piora nas finanças à diminuição de renda e ao desemprego. E que 57% dos trabalhadores passou a fazer bicos e trabalhos extras para engrossar o orçamento familiar em 2017.
Segundo o estudo, ao desemprego atingiu 36% entrevistados, que precisaram recorrer a empréstimos bancários ou grana emprestada por parentes para saldar suas dívidas. A pesquisa também registra que 26% dos consumidores ouvidos precisaram vender algum bem para equilibrar suas contas.