André Luís Cia
Dê asas para seus sonhos

Por André Luís Cia

André Luís Cia

Crédito: Del Rodrigues

André Luís Cia

Aos 12 anos, ele teve um sonho que nunca mais lhe saiu da cabeça. Sonhou que sobrevoava uma cidade de ruas muito estreitas. No entanto, ele não conhecia aquele lugar, mas ao mesmo tempo era como se aquela imagem fosse uma premonição de algo que ainda estava para acontecer em sua vida. Vinte anos depois, quando conheceu Sevilha (a quarta maior cidade espanhola), e passou por uma de suas ruas não teve dúvidas. Era a mesma que havia sonhado no passado.
Casualidade do destino? Coincidência? Independentemente do que tenha sido, foi ali que o administrador de empresas Claudio Ribeiro Bizoto sentiu que recomeçaria sua vida. E, hoje, 16 anos depois de ter chegado à Espanha, ele se orgulha por ter construído uma trajetória de sucesso no exterior e por ter conseguido trazer toda família para a Europa em busca do mesmo sonho que viveu décadas atrás.
Talvez nem mesmo nos seus desejos mais secretos e íntimos o casal de ex-feirantes Djanira e Gerson tenha imaginado que sua família um dia fosse se mudar para outro continente e deixar o Brasil.
Porém, instintivamente, ao batizarem os cinco filhos com a mesma letra C de Claudio (o mais velho), Cleber, Cleiton, Claudimeire e Claudineia (recém-chegada à Espanha) já existisse algo que lhes dissesse que o C carregava uma dose extra de coragem, cumplicidade e conquistas, características que foram sendo colocadas à prova dia após dia na trajetória de cada um deles.
Além dos laços de sangue que os unem, os cinco irmãos ousaram sair de sua zona de conforto e abandonar suas raízes em busca de uma nova vida. No total, hoje, os Bizoto são proprietários de nove lojas na Comunidade Autônoma de Andaluzia.
Mas engana-se quem imagina que essa caminhada tenha sido fácil ou que as vitórias aconteceram rapidamente. A caminhada até o êxito da família foi permeada por muitas histórias de lutas e determinação, e o precursor de tudo isso e o grande responsável pela guinada na vida deles foi justamente o primogênito Claudio.
Aos 48 anos, Claudio Ribeiro Bizoto, se diz realizado e feliz por tudo o que conquistou na Europa, mas ele se orgulha principalmente por não ter desistido no meio dos tombos, percalços e dificuldades que essa caminhada lhe impôs.
De origem humilde, Bizoto se mudou do interior do Paraná para São Paulo (Capital) ao lado da família com apenas um ano de idade. Aos sete anos, já ajudava os pais e tios nas feiras livres paulistanas. A família comercializava legumes. Aos 16 anos, saiu da feira para trabalhar no setor de almoxarifado de uma empresa.
Gradativamente foi ganhando espaço no trabalho até virar representante comercial autônomo. Graças ao emprego pôde cursar a faculdade de administração de empresas e também fazer uma pós-graduação em marketing se desdobrando para conciliar trabalho e estudo, totalizando 16 anos na mesma empresa.
Despertar
Quando fez sua primeira viagem à Europa (Eurotrip), Bizoto passou por cidades como Londres (Inglaterra), Amsterdã (Holanda), Bruxelas (Bélgica) e Paris (França). Na época, tinha 32 anos, e confessa que retornou para o Brasil com a "cabeça virada". Ele mesmo não sabia explicar o que havia mudado dentro dele após aquela viagem, mas tinha uma convicção: a de que seus pensamentos naquele momento estavam mais distantes do Brasil.
O fato de ter sido assaltado várias vezes e de não se sentir seguro em São Paulo o incomodavam e o levava a traçar planos para o futuro. "Eu sentia necessidade de abrir novos caminhos e isso foi crescendo dentro de mim cada vez mais".
A decisão de fazer um curso de Inglês no Exterior veio um ano depois e foi o passaporte que precisava para romper literalmente as fronteiras e se aventurar num novo continente. A princípio, sua ideia inicial era apenas fazer um curso de três meses em Londres e conhecer outros dois países que não havia visitado da primeira vez: Portugal e Espanha, mas o destino interferiu totalmente em seu planejamento.
Ao regressar novamente para a Europa sentiu que sua viagem que seria temporária havia ganhado novos contornos. Passou a sonhar, mais do que isso, a lutar com todas suas forças para ficar no exterior.
Ao chegar em Barcelona (primeiro destino) foi para a casa de uma amiga e num passeio por um dos bares da cidade conheceu uma pessoa que mudaria para sempre sua história: o espanhol Alejandro, que vivia em Sevilha, e que o convidou para conhecer a cidade e também a buscar novas oportunidades profissionais.
Bizoto aceitou o convite, mas deixou parte de sua bagagem na casa da amiga, pois caso não desse nada certo em sua nova empreitada, ao menos teria para onde retornar. Só que três meses depois de ter chegado à Sevilha, ele retornava para Barcelona somente para buscar o restante das malas.
"Eu sentia dentro do meu coração que aquela cidade havia me escolhido. Era o sonho de anos atrás se concretizando. Naquele momento eu entendi que aquele não tinha sido um simples sonho de criança. Era um sinal que eu havia recebido de Deus que Sevilha seria minha nova casa e só fui perceber isso quando botei os pés lá pela primeira vez".
Coube a Alejandro providenciar a documentação de Bizoto por contrato de trabalho para que ele ficasse legalizado no país, mas como o processo demoraria cerca de um ano para ser finalizado, ele explica que teve de se desdobrar em vários trabalhos para sobreviver, muitos deles, os chamados subempregos.
O primeiro foi como vendedor de alarmes de porta em porta. Mesmo sem falar nada de espanhol, ele diz que não tinha vergonha ou medo, mas sim, muita vontade de vencer. Só que no seu terceiro dia de trabalho informal foi perseguido pela polícia e teve que fugir para não ser detido. Trabalhou também como ajudante de pedreiro, em lojas, dentre outros serviços temporários.
"O Alejando foi e sempre será uma pessoa fundamental em minha história aqui em Barcelona. Muito do que sou hoje devo a ele por ter acreditado em mim e estendido as mãos no momento que mais precisei de ajuda. Fui abraçado por toda família dele e serei eternamente grato por isso".
Sonho
E assim, Bizoto foi se mantendo durante um ano até sair sua documentação espanhola. Teve então a ideia de vender biquínis brasileiros, já que era um artigo difícil de se encontrar na região. O único empecilho para colocar sua ideia em prática era a falta de recursos financeiros.
Além da passagem aérea, teria que ter dinheiro também para fazer as compras no Brasil. Mas a sorte estava do seu lado. Ao contar seus planos para o namorado de uma amiga espanhola, o rapaz acreditou no seu potencial e lhe emprestou 10 mil euros. Com o empréstimo, Bizoto viajou para o Brasil e retornou para a Espanha com a bagagem repleta de mercadorias.
Para revendê-la, saía todos os dias de ônibus ou caminhando, e ia diretamente nas lojas - fazia o caminho inverso dos ambulantes que preferiam vender diretamente na orla de cidades da região. Com três meses de trabalho, Bizoto já havia devolvido o dinheiro do empréstimo ao amigo e estava pronto para alçar novos voos.
Nessa mesma época, recebeu uma proposta para trabalhar numa fundação de ajuda a imigrantes em Sevilha. Bizoto intercalava o trabalho com a venda de biquínis, e acabou conhecendo muitos empresários ao visitar as empresas e a promover encontros entre empresários e imigrantes, e esse foi o pontapé, ou melhor, o despertar para projetos mais ambiciosos, como o de se tornar proprietário de uma loja ao invés de revendedor de produtos.
Destinos traçados no mesmo lugar
La Mujer del Cura foi o nome escolhido para sua primeira loja, montada no meio de duas outras lojas nas quais havia trabalhado no passado. Para ele, isso era motivo de muito orgulho porque era um imigrante que havia vencido por conta própria numa área dominada por nativos espanhóis.
Sua loja vendia basicamente biquínis e chinelos. O material era todo comprado em lojas de São Paulo e do Rio de Janeiro. "Eu era o único brasileiro que vendia biquínis na cidade e a loja foi prosperando até que comecei a frequentar feiras de moda pela Europa e também a comprar mercadoria em outros países".
Em pouco tempo, apareceu a oportunidade de abrir seu segundo comércio. O convite partiu de um antigo cliente e o estabelecimento foi montado na garagem de sua residência na praia. Nesse mesmo período, chegou o primeiro dos quatro irmãos para ajudá-lo nos negócios, e em dois anos, eles haviam ampliado o negócio para quatro lojas.
Atualmente, das nove lojas da família, Bizoto é proprietário de quatro delas. Ele conta que depois da chegada do primeiro irmão (Cleber), que os outros irmãos foram chegando gradativamente ao país, e todos foram trabalhar no mesmo segmento. A família cresceu e mesclou com a chegada de espanhóis ao clã dos brasileiros. Hoje, são 15 pessoas: os pais de Ribeiro, irmãos, cunhados e sobrinhos.
"Se não fosse pelos amigos que tive no passado e pela ajuda que eles me deram eu não sei se teria ficado porque a vida de um imigrante recém-chegado num país estrangeiro não é nada fácil. Até hoje, mesmo já tendo feito minha própria história e mostrado meu talento ainda sofro preconceito quando me ouvem falando e veem que não sou espanhol", justifica.
Há seis meses na Espanha, o casal de ex-feirantes Djanira e Gerson está muito feliz por terem a oportunidade de vivenciarem algo que nunca haviam sonhado. Segundo Bizoto, o melhor disso tudo é que eles não precisaram abandonar suas raízes porque na sua residência- onde moram atualmente- eles podem continuar plantando, colhendo e cuidando de animais.
Ele ressalta que sua vida e de toda sua família só tem um coração atualmente: a Espanha, porque foi nesse país que cada um deles a seu tempo teve a oportunidade de construir uma nova história. “Sevilha nos deu tudo o que temos hoje. O sonho de anos atrás tinha uma razão de ser".