Paulo Coelho
Quatro histórias de amor não muito felizes

Por Paulo Coelho

Paulo Coelho

Crédito: Divulgação

Paulo Coelho

Os taoístas contam que, no início dos tempos, o Espírito e a Matéria lutaram entre si um combate mortal. Finalmente o Espírito triunfou - e a Matéria foi condenada a viver para sempre no interior da Terra. Antes que isto acontecesse, porém, sua cabeça bateu no firmamento, e reduziu a pedaços o céu estrelado.
A deusa Niuka saiu do mar, resplandecente em sua armadura de fogo; fervendo as cores do arco-íris num caldeirão, foi capaz de recolocar as estrelas em seu lugar, mas não conseguiu encontrar dois pequenos cacos, e o firmamento ficou incompleto.
Segundo os taoístas, aí começa a necessidade do amor: duas almas sempre estão percorrendo a Terra, em busca de sua Outra Parte, para que possam encaixar no pedaço vazio do céu - e, desta maneira, completar a Criação. A seguir, algumas pequenas histórias (não muito felizes) desta busca incessante:
As cartas apaixonadas
Um guerreiro apaixonou-se pela filha do seu general. No intervalo das batalhas, escrevia cartas apaixonadas - mas ficava com medo de enviá-las, pois os agentes do general podiam descobrir seu conteúdo. Finalmente achou um mensageiro de confiança - e mandou um bilhete à sua amada, implorando um encontro.
Logo recebeu a resposta: a moça conseguiria escapar da vigilância de seu pai por duas horas. Entusiasmado, o guerreiro levou consigo todas as cartas de amor que havia escrito. Assim que a viu, tirou-as do bolso, e começou a ler suas declarações de amor em voz alta. Quando terminou, duas horas já haviam passado, e a moça teve que voltar para casa.
Preocupado em mostrar o quanto a amava, o guerreiro não conseguiu amá-la de verdade.
Esquecendo a magia
A gaivota voava por cima de uma praia, quando viu um gato, e imediatamente apaixonou-se por ele. Desceu dos céus, e perguntou:
- Onde estão suas asas?
Cada bicho fala apenas um idioma, e o gato não entendeu o que ela dizia; mas notou que o animal a sua frente tinha duas coisas estranhas saindo de seu corpo. "Deve sofrer alguma doença", pensou o gato.
A gaivota percebeu que seu novo amado a olhava fixamente:
- Pobrezinho! Foi atacado por monstros, que lhe deixaram surdo e roubaram suas asas.
Compadecida, pegou-o em seu bico, e levou-o para passear nas alturas. "Pelo menos ficamos juntos algum tempo", pensava, enquanto voavam. Mas como não conseguiu - por mais que tentasse - demonstrar seu amor, ela o deixou no chão, e partiu em busca de alguém que a compreendesse melhor.
O gato, durante alguns meses, tornou-se uma criatura profundamente infeliz: tinha conhecido as alturas, visto um mundo vasto e belo, encontrado uma companheira. Mas, com o passar do tempo, voltou a se acostumar com o que era, concluiu que não tinha nascido para ir tão longe em seus sonhos, e nunca mais desejou que algo de bom lhe acontecesse na vida, pois isso o fazia sofrer muito.
Querendo dar o melhor
Um casal de velhos tomava café no dia de suas Bodas de Ouro. Nesta manhã, a mulher passou manteiga na parte crocante do pão, e a estendeu para o marido, ficando com o miolo.
"Sempre quis comer a melhor parte do pão", pensou consigo mesma. "Mas amo meu marido, e durante estes cinqüenta anos lhe dei o miolo. Entretanto, hoje acho que mereço satisfazer meu desejo".
Para sua surpresa, o rosto do marido abriu-se num sorriso.
- Obrigado por este presente, meu amor - disse ele. - Durante cinqüenta anos, sempre quis comer a casca do pão. Mas, como você sempre gostava tanto, eu nunca ousei pedir.