Nancy Thame
Cidade oculta

Por Nancy Thame

Nancy Thame

Crédito: Christiano Diehl Neto

Nancy Thame

O trabalho de planejamento urbano lida basicamente com os processos de produção, estruturação e apropriação do espaço urbano. Sob este ponto de vista, os planejadores devem e podem antever os possíveis impactos, positivos e negativos, causados por um plano de desenvolvimento urbano. Na maioria das vezes, os problemas surgem como resultado de ações irracionais e desordenadas.
Contudo, há espontaneidades que buscam construir alternativas para problemas presentes no cotidiano da urbanização, que estão além dos processos e mecanismos formais, resultando em boas práticas e em inovação. Um exemplo são as práticas da Agricultura urbana que ocorrem em várias cidades do mundo e que consistem em práticas produtivas voltadas para o consumo próprio e/ou venda para o mercado local.
Ocorrem em diferentes áreas do perímetro urbano, em termos de tamanho, localização e propriedade da terra (pública ou privada). Observamos que são práticas que ocorrem de modo informal, espontâneo e espraiado pela cidade. A agricultura urbana traz elementos que podem nos ajudar a rever a ideia de que a cidade é o produto da técnica, exclusivamente constituída de ambientes construídos.
Aliás, a Agricultura urbana se dá exatamente nos espaços ainda não construídos. Estas práticas trazem a possibilidade de diversificação das formas e dos usos do espaço urbano.
Tendo em conta o rápido e intenso processo de urbanização brasileira, é um desafio pensar na destinação de terrenos vagos para o plantio, mesmo quando estes existem em grande quantidade nas cidades ainda que nem sempre reconhecidos e visíveis.
Em termos da prática, um desafio central decorre do fato dos terrenos terem donos e não estarem imediatamente acessíveis, e em termos conceituais, o uso produtivo agrícola dos terrenos exige a articulação das noções de Agricultura, tida como atividade econômica rural, e de cidade, tida como o lugar das atividades não-agrícolas. Apenas recentemente a agricultura urbana vem ganhando visibilidade e sendo inserida na agenda das políticas públicas.
Parte-se de dois pressupostos: o primeiro, de que o cultivo agrícola nas cidades não constitui uma ação nova, pois a urbanização se deu com a vinda de pessoas que trouxeram a cultura rural; e o segundo, de que a agricultura urbana não é apenas resquício do rural no urbano, mas uma prática que pertence ao ambiente urbano.
Levar ao debate público iniciativas da chamada cidade oculta, pode ser uma forma de fortalecê-las, pois se propicia visibilidade a um tema que não é pautado como compromisso público. São relações sociais, práticas espontâneas, sentidos e sentimentos que já estavam nos lugares, nas lajes de cobertura das residências e nos taludes ocupados, antes de se tornarem objetos de intervenções do governo municipal e objeto de estudos acadêmicos.
Como argumenta Maricato (2000, p.186) "Na sociedade brasileira, podemos dizer que a realidade é subversiva ao pensamento conservador. Daí o potencial de uma ação pedagógica sobre o reconhecimento da cidade real, em especial da 'cidade oculta'".
Texto base: Agricultura urbana: prática espontânea, política pública e transformação de saberes rurais na cidade 1, de Maura Neves Coutinho e Heloisa Soares de Moura Costa - UFMG.