MUITOS OUTROS CASOS
Centrais só para emergências
Relatos dão conta que muita gente quer resolver problemas sociais

Por Ana Cristina Andrade

Muitas pessoas utilizam indevidamente algumas centrais telefônicas

Crédito: Del Rodrigues

Muitas pessoas utilizam indevidamente algumas centrais telefônicas

Segunda-feira, 19 de março de 2017
Quando se fala em emergência, os dois primeiros números que vêm à mente da população, na maioria dos casos, são o 190 (Polícia Militar) e 193 (Corpo de Bombeiros). São telefones que têm por finalidade atender só emergência, mas não é essa realidade vivida e contada por profissionais destas áreas.
Relatos de atendentes dão conta que muita gente quer resolver problemas sociais ou até passar trotes nas corporações, sem importar-se que do outro lado da linha deve ter alguém tentando um socorro.
As estatísticas das duas centrais de atendimento comprovam isso. Para se ter uma ideia, o Centro de Operações de Polícia Militar de Piracicaba (Copom), instalado no bairro Algodoal, atende ligações de 36 municípios que totalizam um número aproximado de 2,6 milhões de habitantes.
A média diária é de seis mil ligações que caem no 190, todos os dias, mas somente 790, em média, são transformadas em ocorrências policiais. As demais, de acordo com dados do setor de supervisão do sistema, envolve trotes - entre 500 e 600 chamados -, cerca de 600 são assuntos que os militares destinam para outros órgãos e ligações diversas, que não são de competência da Polícia Militar resolver.
Na última quinta-feira (16), enquanto a Gazeta fazia a reportagem no Copom, um atendente recebeu a ligação de uma mulher que reclamava que mandou seu aparelho celular para conserto, via Sedex, tem todos os papéis da correspondência e agora se deu conta que seu Sedex sumiu.
O PM que atendeu não a descartou, mas durante quase três minutos orientou-a a procurar seus direitos. Costuma ser esse o tempo-resposta entre uma ligação de emergência, as perguntas que ele faz a quem está ligando para direcionar a ligação e o despacho para as viaturas.
No período eleitoral, segundo o chefe do Copom, capitão/PM Marcos Eduardo Rodrigues, choviam ligações de pessoas perguntando: “em qual escola que eu vou votar?”.
“Acredito que por falta de conhecimento, algumas pessoas acham que o governo tem que prestar apoio para qualquer tipo de carência e acabam associando que alguém vai atender o 190 e resolver tudo para elas". Muitas ligações, segundo ele cerca de três mil por dia, são classificadas como “chamadas não concluídas”.
“É quando a gente atende, ninguém fala nada, por exemplo. Tem também os casos em que a pessoa tem o celular cadastrado no número 190, como emergência, o coloca no bolso e, sem querer, o celular disca. A gente atende e nada. Chegamos a escutar os passos da pessoa, conversas, porém ela não vê que o telefone ligou sozinho”, declarou.
Não é diferente com os Bombeiros, segundo o tenente Júlio Cesar Cavellani, responsável pelo Cobom (Centro de Operações do Corpo de Bombeiros), que atende pelo 193, 24 horas, com ligação também gratuita. De uma média diária de 350 ligações, de acordo com ele, no máximo 30 viram atendimento emergencial. O restante envolve trotes e outras ligações que não competem aos atendentes do 193 solucionar.
Cavellani disse que não se esquece de um trote que passaram certo dia, às 17 horas, horário de pico. A pessoa dizia que um homem iria pular da ponte próxima ao Shopping Piracicaba. “A ligação mobilizou três viaturas nossas, mais o helicóptero Águia. Fomos para o local e, ao chegarmos, já estranhei o fato de não ter ninguém olhando, mas não podemos deixar de procurar a suposta vítima”, explicou.
“Pegamos o número que ficou no identificador de chamadas e ligamos para a pessoa. O celular era de um estudante que, durante a aula, esqueceu o aparelho em cima da cadeira, um colega dele pegou e nos passou o trote”, contou.
Segundo o Corpo de Bombeiros é o tipo de ocorrência que envolve risco, mesmo para os socorristas, porque era horário de pico, trânsito intenso, viatura pesada e muita adrenalina da equipe para poder chegar logo e impedir a “vítima” de pular no rio.
Qualquer coisa
O mau uso do serviço por parte de alguns, segundo o oficial, é ligar por qualquer coisa. “Tem gente que liga no 193 para pedir o número de telefone da Prefeitura, de um ponto de táxi, de postos de saúde, para saber horários de ônibus, mas existem centrais para isso”, disse Cavellani. “Quanto ao trote, se uma linha é ocupada para isso, se precisar entrar um caso mais sério, pode ser que não consigamos atender”, ressaltou.
Guarda Civil
A estatística da Guarda é de 1.450 ligações mensais, por meio do Cop (Centro de Operações), dos quais 80% são de caráter policial e 20% de caráter assistencial. Nesta unidade os chamados podem ser feitos pelos telefones 153, 199 ou 3422-0023. Já os trotes são poucos, de acordo com a instituição - média de quatro a cinco por dia.
Samu
Este serviço realizou, no ano passado, 28.698 atendimentos. Não foi passada pelo setor, a quantidade de trotes.
Ligações erradas
O Corpo de Bombeiros e a Guarda Civil passam por um problema sério, que é a ligação errada. Ocorre quando é feita a discagem interurbana. Se a pessoa disca, por exemplo, (19) 3422-XXXX, juntam os três primeiros números e a ligação cai no “193”. Ela se esquece de colocar o número da operadora antes do DDD. No caso da Guarda, é quando a ligação é para DDD de código “15” e o número do telefone começa com “3”.