TUDO ORGANIZADO
Filatelia resiste à modernidade e se mantém viva
Em tempos de smartphones, a arte de colecionar selos prevalece

Por Marcelo Rocha

João Gustavo Brasil Caruso, 76 anos de idade, professor aposentado da Esalq

Crédito: Antonio Trivelin

João Gustavo Brasil Caruso, 76 anos de idade, professor aposentado da Esalq

Quinta-feira, 9 de março de 2017
O ato de colecionar selos postais já foi bastante popular em outros tempos e tinha milhares de adeptos pelo globo. Até a garotada. Hoje em dia, contudo, o passatempo é “demodê” e desconhecido da geração do smartphone, dos videogames e deste mundo apressado. Mas, alguns colecionadores ainda resistem por aí, com suas bem cuidadas e organizadas coleções. 
Os arquivos da Filatelia (a arte de colecionar selos) registram que o primeiro selo do mundo circulou na Inglaterra, em 1840. E que o Brasil foi o segundo país a ter um selo postal, o raro e valioso Olho de Boi - na verdade, a série Olho de Boi, composta por três selos (30, 60 e 90 réis), que foi impressa em 1843, durante o Império.
Salvo raras exceções, todo colecionador de selos (filatelista) é detalhista, perfeccionista e apreciador da boa estética. E empunha uma lupa e uma pinça para manusear cuidadosamente os selos. O piracicabano João Gustavo Brasil Caruso, 76 anos de idade, engenheiro agrônomo e professor aposentado da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) se encaixa nesse perfil: é um filatelista clássico.
“Comecei a colecionar jovem, lá pelos 12 anos de idade. Na verdade, era um ajuntamento de selos. O primeiro selo que eu ganhei foi de um tio meu, que eu gostava muito. Toda correspondência ele arrancava e guardava num caixote”, recorda.
Hoje, Caruso estima que seu acervo beire uns 40 mil selos, incluindo exemplares duplicados. O “chute” foi dado depois de muita insistência da reportagem, porque ele nunca fez uma contagem oficial. “Essa pergunta é complicada. Não tenho ideia”, diz o filatelista que possui dezenas de álbuns e classificadores com selos separados por temas, períodos históricos e outros critérios pessoais.
“Tenho bastante coisa da época do Império, inclusive um selo da série Olho de Boi (o de 60 réis). Já a parte dos selos comemorativos do Brasil República, tenho praticamente completa, faltam apenas umas sete ou oito peças”.
A Federação Internacional de Filatelia (FIP) estabelece 10 modalidades de colecionismo de selos, ou as chamadas “classes filatélicas”. Elas são as seguintes: tradicional, temática, inteiros postais, selos fiscais, história postal, literatura filatélica, aerofilatelia, astrofilatelia, filatelia juvenil e filatelia moderna.
Nos últimos tempos, Caruso está bastante envolvido com uma coleção temática sobre o efeito estufa. “Em exposições competitivas, ela é exibida num quadro com 16 folhas que reúnem os selos e explicações sobre o tema”, comenta.
Os temas escolhidos são os mais variados possíveis, diz Caruso, desde que obedeçam a regras dos órgão nacionais e internacionais de Filatelia. Ele também mantém coleções sobre barcos e navios, Olimpíadas, águias e tipos fermentações de açúcar e álcool. “Porque eu trabalhei com isso”, justifica.
O empresário piracicabano Nelson Spada, 67 anos de idade, também é um colecionador. “Desde os meus 18 anos de idade eu mexo com isso. Mas, na verdade, sou um ajuntador, não um colecionador”, diferencia. Uma de suas coleções temáticas é sobre corujas. “Porque é um tipo de pássaro que existe no mundo inteiro”, justifica.
“A Filatelia funciona como um ciclo de amizade. Mas ela também é uma viagem na história do mundo, pois você conhece muitos lugares sem ter ido a eles”, declara Spada, que, em seguida, relata duas curiosidades sobre a Filatelia brasileira.
“Sabe por que o selo comemorativo dos mil gols do Pelé (de 1969) só mostra ele de costas, dando o famoso soco no ar? Porque na época, só presidente poderia ter o busto estampado em selos oficiais”, explica. Outra curiosidade, conta Spada, foi a emissão do selo pelo comemorativo pelo centenário do Corinthians, em 2010.
Caruso e Spada lamentam a desativação do Clube Filatélico e Numismático de Piracicaba, entidade que professor aposentado presidiu entre 2004 e 2012. “Infelizmente, caiu bastante a emissão de selos porque os Correios não olham mais para a Filatelia e porque a juventude perdeu o interesse”, analisa Spada.
Itens especiais
Caruso possui selos de todos os tipos, inclusive alguns valiosos e disputados itens. Entre eles, exemplares de “máximo postal” (o cartão postal, o selo e o carimbo correspondentes a um mesmo tema), inteiro postal (que trazem uma impressão com o valor do porte sob a forma de selo-fixo ou com a indicação de pré-franqueamento) ou o chamado “envelope de primeiro dia”.
“Estes são envelopes com o selo e o carimbo do dia no qual ele foi impresso”, esclarece. Nessa última categoria, Caruso possui duas peças interessantes: um emitido pelo centenário do médico e cientista Vital Brasil, em de 28 de abril de 1965, e outro pelo bicentenário de Piracicaba (1967), de 1º agosto de 1967, que, à época, custou cinco centavos.
De acordo com Caruso, o selo mais barato da cobiçada série Olho de Boi custa uns R$ 3 mil. “Mas o mais caro dos três é o de 30 (réis), que nem sei te dizer o preço”, fala. “Eu não gasto muito com selo, faço compras de R$ 150,00 a R$ 200,00. Mas nos leilões de Filatelia, tem sujeito que paga R$ 6 mil numa peça”, diz o colecionador que arremata lotes de selos pela internet e vira-e-mexe recebe, em sua casa, a visita de gente querendo vender suas coleções.
Muitas delas com pouco ou nenhum valor financeiro. “Eu tenho olho de filatelista, de tanto mexer eu sei se o selo está danificado, se tem valor ou não”, garante. Todas as transações filatélicas de Caruso, diga-se, rolam sob o olhar da esposa, a dona Inês. “Não sei, mas se eu ficar viúva eu passo tudo nos cobres”, dispara com bom-humor e um sorrisinho escondido.