SÉRIE 'PREFEITOS'
Na ditadura Vargas, diversos gestores se revezaram
Para exemplificar, de 1930 a 1950, Piracicaba teve 17 administradores

Por Adriana Ferezim

Rua Governador Pedro de Toledo,. esquina com a Moraes Barros, em 1932

Crédito: Acervo/IHGP

Rua Governador Pedro de Toledo,. esquina com a Moraes Barros, em 1932

Sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Fazer a gestão durante uma ditadura e com uma revolução e sua derrota, foram desafios que os prefeitos tiveram de enfrentar na ditadura do primeiro mandato do presidente Getúlio Vargas. De 1930 a 1950, Piracicaba teve 17 administradores. Não havia mais eleições, eles eram indicados.
O historiador e diretor do Departamento de Documentação e Arquivo da Câmara de Vereadores, Fábio Bragança, ressalta que um dos momentos mais dramáticos da história política de Piracicaba foi registrado em 11 de novembro de 1930, com a assinatura do Decreto nº 1.938, no qual Getúlio Vargas assume o poder iniciando a Era Vargas com o Governo Provisório.
“Na prática, o novo regime determinou a dissolução do Congresso Nacional, das Assembleias Estaduais e das Câmaras Municipais, sob o pretexto de fazer uma depuração dos políticos que controlavam o poder, que integravam a chamada República do ‘Café com Leite’ (porque o país era presidido por políticos de São Paulo e Minas Gerais). A tomada do poder por Vargas foi tão rápida que não houve tempo de uma organização articulada da oposição. Vargas suspendeu a Constituição e concentrou em suas mãos os poderes Executivo e Legislativo até que uma nova Assembleia Constituinte fosse convocada”, explicou.
Isso motivou a Revolução Constitucionalista de 1932. “São Paulo foi derrotado pelo governo federal, mas o levante motivou Vargas a convocar uma comissão para elaborar o anteprojeto da futura Constituição. No ano seguinte, a Assembleia concede a anistia aos participantes do movimento constitucionalista, anuncia o fim da censura à imprensa, estabelece a data para a realização de eleições legislativas em outubro e a elegibilidade dos interventores no próximo pleito”.
Em 1934 é promulgada a nova Constituição da República. Em 1935, a Câmara e o Senado se reúnem no Rio de Janeiro e iniciam a primeira legislatura após a revolução, mas em 1935, ocorreu o levante comunista e o governo iniciou uma caçada aos integrantes da Aliança Nacional Libertadora (ANL)”, comentou.
Em 1936 a minoria parlamentar conseguiu uma trégua política com Vargas. “Com a confiança restaurada, a recuperação da economia e a repressão à ameaça comunista, no final do ano 1937, as forças políticas se prepararam para a eleição que deveria ser realizada em janeiro de 1938. O Executivo Municipal passou a ser escolhido entre os vereadores eleitos pelo povo. Porém, isso ocorreu uma única vez. Na ocasião, tomou posse, em Piracicaba, Luiz Dias Gonzaga. Uma nova decisão de Vargas suprimiu as eleições e as autoridades municipais passaram a ser novamente nomeadas”.
Ateneu
Piracicaba, nesse período, era a quinta maior cidade do interior de São Paulo, conhecida como a “cidade das escolas” ou “Ateneu Paulista”, pelo respeito e padrão pedagógico de suas escolas, informa Bragança. O Brasil deixava de ser rural e se industrializava e o município acompanhava esse processo, que significava a ruptura do antigo para o novo, em plena ditadura.
Um dos prefeitos dessa época foi o engenheiro agrônomo José Vizioli. “Ele tornou-se a primeira mudança política de Piracicaba na primeira metade do século XX e, segundo alguns autores, pode ser visto como o homem que abriu caminhos para outros nomes como Luciano Guidotti e João Herrmann Neto”, analisa o historiador.
Vizioli foi indicado por Vargas, sob influência de Adhemar de Barros. “Era conhecido como o italiano e sua indicação quebrou o predomínio de grandes famílias no poder. Ele também ressaltava a forte presença dos imigrantes italianos, árabes, alemães, e outros, como os Dedini, Morganti, Ometto, D’Abronzo, Cury, Coury, Abrahão, Diehl, e Krähenbüll”.
Como prefeito, construiu o Campo de Aviação, onde hoje é o Aeroporto. Implantou o tratamento de esgoto na Rua do Porto e o sistema de numeração de residências. Outro grande nome foi Luiz Dias Gonzaga, segundo Bragança. Ele era fazendeiro e pecuarista.
“Foi líder inconteste do passado político e governamental de Piracicaba. Foi, também, quatro vezes prefeito e deputado estadual de 1951 a 1954. Um dos principais produtores de café na época, suas passagens pela prefeitura da cidade são marcadas por diversas realizações: em 1938, deu-se a construção e a inauguração do Monumento ao Soldado Constitucionalista, na praça José Bonifácio; fez o primeiro trecho de asfalto da Avenida Armando Salles de Oliveira; fez estradas na zona rural e criou o Serviço Médico Rural. Também liderou a reforma do estádio do Esporte Clube XV de Novembro, em 1948; e estimulou a obra da Catedral de Santo Antônio; entre outras tantas benfeitorias”, informou Bragança.
A cidade na Revolução de 1932
O jornalista Edson Rontani Júnior, presidente do Núcleo MMDC Voluntários de Piracicaba, conta que toda a cidade se comoveu com a revolução. “Se houve um líder foi o então prefeito Luíz Dias Gonzaga. Por meio de decretos envolvia o povo piracicabano solicitando a entrega de armamentos (em especial espingardas Wichester). Houve também o envolvimento do professor Alberto Vollet Sachs que assinou a ata das primeiras reuniões de convocação dos ‘voluntários de Piracicaba’ no Teatro Santo Estevão”, disse.
Rontani Júnior explica que os intelectuais da época usavam a imprensa para convocar os voluntários e envolver as pessoas. Figuras como Francisco Lagreca, Aldrovando Fleury, Carlos Aldrovandi, Mário Neme e o professor Manoel Mattos também foram líderes do movimento no município. Mas foi mesmo Luiz Dias Gonzaga, como prefeito, quem deu todo suporte para o envolvimento dos piracicabanos”.
Ele conta que a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) foi um grande ponto de alistamento em Piracicaba. “Os três meses da revolução – de 9 de julho de 1932 a 3 de outubro de 1932 – fez com que Piracicaba parasse. O prefeito Gonzaga tinha em mãos a força política. Apesar de o Estado ter um interventor e não governador, a palavra do prefeito era lei. Tanto que ele governou com diversos decretos – algo inconstitucional hoje – tomando atitudes como a que determinou que as padarias produzissem o “pão de guerra” com menos trigo e farinha, que eram distribuídos gratuitamente”.
Rontani Júnior está preparando um livro que deverá ser lançado no segundo semestre de 2017, com apoio do instituto Histórico e Geográfico (IHGP). A obra Cartas a Piracicaba, traz cartas enviadas pelos voluntários piracicabanos do front. Relatos do que eles viram do conflito.
“Lá notaremos que os voluntários que para cá vieram visitar familiares ou a negócios, eram recebidos com honra pela administração pública. Na verdade, coube a Gonzaga criar a ordem no meio do caos. A realidade era outra, mas existem propagandas em jornais nos quais o prefeito pede que empresas funerárias façam enterros (de pessoas comuns, não voluntários) de graça, se possível. Para que famílias abastadas abram espaços em residências para foragidos, como os cariocas que eram adeptos à causa constitucionalista e por aqui vieram viver”, revelou.
Naquela época, o prefeito ocupava espaços como o Teatro Santo Estevam, a Escola Morais Barros (por isso uma das ruas que a ladeiam é chamada de Rua Voluntários de Piracicaba). “Cabia ao prefeito formar guardas para os presídios e apoiar o uso do Tiro de Guerra para evitar ações inimigas ou de vândalos, nos quais havia grande circulação de pessoa. Um dos casos eram os cinemas. Uma instituição privada, considerada a segunda diversão depois do teatro era guardada pela força pública e pelos atiradores do TG”.
Como a imprensa estava censurada após o término da revolução, na qual os paulistas foram derrotados, Rontani Júnior afirma que é difícil dados históricos da cidade. Ele apurou que houve perseguição, deportação e mortes após o armistício assinado por São Paulo. Participaram do conflito entre 400 e 900 voluntários de Piracicaba, conforme Rontani Júnior.