AEDES AEGYPTI
O mito da crotalária: planta não é criadouro do predador
Eficiência é garantida quando a espécie é utilizada para fins agrícolas, como adubo verde

Por Marcelo Rocha

O entomólogo Alexandre José Ferreira Diniz, da Esalq, que encabeça 'uma cruzada' para acabar com este mito

Crédito: Christiano Diehl Neto

O entomólogo Alexandre José Ferreira Diniz, da Esalq, que encabeça 'uma cruzada' para acabar com este mito

Na internet e nas redes sociais circulam anúncios e matérias dizendo que a crotalária – planta leguminosa que alcança cerca de 80 centímetros e que dá uma bonita flor amarela - seria um dos “antídotos” naturais ao Aedes aegypti. Isso não é verdade, não caia neste conto. Não há comprovação científica sobre isso. O alerta é do entomólogo Alexandre José Ferreira Diniz, 34 anos de idade, pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) que encabeça “uma cruzada pessoal” para acabar com esse mito popular.
A crotalária, explica Diniz, é uma planta eficiente quando utilizada para fins agrícolas, como adubo verde (matéria orgânica) ou no controle de uma praga (chamada nematóide). “Mas em algum momento surgiu um boato, uma lenda, de que a crotalária podia servir como um atrativo para um predador do Aedes aegypti (a larva de um tipo de libélula)”, diz.
Diniz conta que a libélula ninfa (jovem e ainda sem asas), que vive na água, é realmente uma predadora de pequenos organismos e pequenas larvas, incluindo a do Aedes aegypti. “Só que para essa ninfa se desenvolver na natureza ela necessita de água limpa e corrente. Para se ter uma ideia, nem o chafariz da praça seria suficiente para a reprodução de libélulas”, afirma. Isso significa dizer que libélulas não cresceriam em água acumulada nas flores de crotalária. “Mesmo sem comprovação científica, essa teoria por si só é falha, porque a principal regra para o controle do Aedes é eliminar a água parada”, acrescenta.
Na web, há vários anúncios de venda de crotalária. A lenda provocou até a aprovação de decretos, por algumas prefeituras, autorizando a compra de sementes para distribuição à população e o plantio da crotalária em espaços públicos. “Tem gente ganhando dinheiro com isso, como vendedores de sementes e outros interessados. Precisamos desmistificar isso, acho injusto fazerem esse tipo de propaganda num momento em que as pessoas estão fragilizadas e preocupadas com a dengue, zika e chikungunya”, observa.
O também entomólogo Aloísio Coelho Júnior, 30 anos de idade, frisa que dependendo da variedade da crotalácia, ela pode, inclusive, ser tóxica. “Algumas variedades desta planta têm composto tóxico”, diz. Por ora, salienta Diniz, o controle do Aedes aegypti se dá eliminando água parada, tratando doentes e combatendo o mosquito. “O que funciona é esse tripé. Não tem o que reinventar neste momento”, fala.